sem que eu tenha alguma chance de reconhecimento, dou voz ao papel de louca. não sou assim sempre. penso em me desculpar. penso no quão normal eu posso ser caso não tenha outra saída. sei que não tenho forças, mas tento não calcular o que me resta. no reencontro com a adolescência enxerguei o que não posso ser e senti o estômago revirar, misturando cerveja às centenas de dores descosturadas. é estranho pensar que tudo continua igual, apesar de repetir a frase de sempre: as pessoas não mudam. fiquei pensando na mudança de uma ou outra coisa que nada significa se voltamos aos mesmos lugares e pessoas do passado. as relações independem de certas mudanças. o tratamento continua o mesmo, podem voar cinquenta anos. se você tiver tempo, pense em coisas que certas pessoas não merecem. não mereciam antes e merecem menos ainda hoje. apenas pense. não há lei de merecimento. ainda assim, não adiantaria. foca na menina de branco. foca na sandália amarela. foca no cara lá em cima, levantando os braços. foca em alguma coisa, porra! é muito imbecil essa cara alcoolizada sem um olhar vivo. eu tenho pensado na hora de ir embora. eu penso muito na hora de pegar a trouxinha de lembranças ainda quentes, colocar no ombro, e ir embora. eu vi um filme hoje de nome lindo: viajo porque preciso, volto porque te amo. acho lindos os nomes longos. lembrei do livro do Aquino: receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. lindo, lindo. no filme, ela dizia: é coisa triste gostar sem ser gostada. bota tristeza lá no início de tudo. triste e pesado. li esse blog no final de semana e fui rolando a barra lateral e rolando até arquivos muito antigos e quis aquela sinceridade descabida de volta. não que ela tenha ido embora, mas às vezes penso que dou uma maquiada. ou então faço um jogo e me desminto, mentindo e reaprendendo a me desiludir. não faz grande sentido. tenho vontade de continuar escrevendo até a dor passar. a dor de não ser gostada. a dor de dar murros em pontas de facas. ontem, depois do cochilo do álcool, durante o pesar do estômago e a pressão subindo e caindo, liguei a tv e assisti menina de ouro. fazia tempo que não via. mexeu ainda mais o que ingeri durante todo dia. não consegui concluir os sentimentos. estar à deriva é tão melhor do que definir as coisas. quando ele esquece o mundo e o celular deixa de existir, eu sinto a realidade entrando com força perfuradora para dentro de tudo. eu queria saber o que fazer para existir sem doer. eu queria que o robinho não fizesse aquele gol imbecil.
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(…)
Os enfermeiros anunciaram a despedida. Soltei sua mão, dei um beijo na testa, acariciei o cabelo volumoso e bagunçado, sorri mais uma vez e me virei para sair. Disse que antes que ela percebesse estaria de volta. Era só o tempo de relaxar um pouquinho, dormir, e eu estaria de volta. Ela sorriu e pediu com a voz baixinha e tímida para eu ficar por ali, invisível, além do horário de visita.
Foi a coisa mais linda que alguém já me pediu. Sorri e me virei. Não reparei na falta de cheiro, de luz e de cor. Ri. E não entendi. Não liguei as palavras. Peguei outro ônibus e fui para casa. Esqueci o caminho pelo caminho. Só me lembro de estar ao lado da cama, ajoelhada, com as mãos coladas, os olhos cheios de lágrimas e o coração gritando lá de dentro. Rezei como nunca achei que soubesse. Rezei tanto que dormi. Dormi profundamente. Nenhum sonho, nenhum ruído, nenhum medo. Já era noite quando o telefone tocou. Falei baixinho com a esperança de que o telefonema não viesse de onde eu imaginava. Talvez eu quisesse que o outro lado não me ouvisse. Talvez eu quisesse me esconder embaixo da cama num lugar bem escuro e bem fundo para que o celular nunca mais se aproximasse. E eu ia puxar a Alice pela mão e colocar ela ali no cantinho, bem escondida, sob a minha proteção, debaixo dos meus olhos e das minhas asas.
(…)
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quando entrar no quarto, não olhe para baixo
sente-se na cama
levante-se
ande inquieto
encoste a barriga na janela
abra os vidros
grite silenciosamente
volte-se para trás
volte-se para mim.
esqueça os imperativos antes mencionados
assuma
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sabe aqueles emails com textos mequetrefes que atribuem a autores fodas que, claro, vira e mexe reclamam a não-autoria? isso, quando vivos, claro. pois é. é isso. o texto fácil cheio de pontos e respiração e intensidade superficial. definições fáceis: o amor, um suspiro no meio da tarde. a saudade, uma música que toca inesperadamente. o desejo, uma barra de diamante negro. a espera, a avenida paulista. a paz, duas pernas descansando sobre o colo impaciente. o carinho, uma colher de doce de leite. a felicidade, estar ao lado.
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eu durmo melhor de dia do que de noite. com a janela aberta e a luz tomando o quarto.
de dia, eu durmo.
você pede uma coisa só. a coisa não acontece. todos os não pedidos aparecem saltitantes. é só uma coisa que eu quero. é a única coisa que não acontece. insisto. continuo pedindo pros números repetidos no relógio, pro sol, pra lua, pras estrelas, pros anjos, pro meu dramaturgo vocalista.
a distância e o silêncio vão deixando um buraco tão tão tão grande. e dói tanto tanto tanto, eu disse.
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Ela se surpreendeu de que também ele tivesse notado o que ela via de si mesma no espelho.
- Meu mistério é simples: eu não sei como estar viva.
- É que você só sabe, ou só sabia, estar viva através da dor.
- É.
- E não sabe como estar viva através do prazer?
- Quase que já. Era isso o que eu queria te dizer.
Houve uma pausa longa entre os dois. Quem parecia emocionado agora era Ulisses. Chamou o garçom, pediu mais uma dose. Depois que o garçom se afastou ele disse num tom de voz como se tivesse mudado de assunto e no entanto o assunto era o mesmo:
- Pois eu tive que pagar a minha dívida de alegria a um mundo que tantas vezes me foi hostil.
- Viver, disse ela naquele diálogo incongruente em que pareciam se entender, viver é tão fora do comum que eu só vivo porque nasci. Eu sei que qualquer pessoa diria o mesmo, mas o fato é que sou eu quem está dizendo.
- Você ainda não se habituou a viver? perguntou Ulisses com intensa curiosidade.
- Não.
- Então é perfeito. Você é a verdadeira mulher para mim. Porque na minha aprendizagem falta alguém que me diga o óbvio com um ar tão extraordinário. O óbvio, Lóri, é a verdade mais difícil de enxergar – e para não tornar grave a conversa acrescentou sorrindo – já Sherlock Holmes sabia disso.
- Mas é triste só enxergar o óbvio como eu e achá-lo estranho. É tão estranho. De repente é como se eu abrisse minha mão fechada e dentro descobrisse uma pedra: um diamante irregular em estado bruto. Oh Deus, eu já nem sei mais o que estou dizendo.
(Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres – Clarice Lispector)
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saiu pra trabalhar e o encontrou na esquina da barraca de carne louca com a loja de calçados. entrou no prédio e o encontrou no elevador. caminhou pela paulista e o encontrou perto da livraria. olhou para o celular e flagrou o tremor em compasso com o do peito: a despedida do apartamento que você pediu, já, te espero. deitou na cama e sonhou com as mãos acariciando umas as outras. ligou o rádio e pegou o refrão: me peguei sonhando com sua voz ao pé do ouvido, e te liguei. fechou os olhos e ouviu o toque do celular se misturar com a música. o nome piscou, o coração sorriu, as palavras tortas compactuaram com o não-sentido-não-controle-feliz. pensou em morrer, escolheu amar. escolheu parar, ganhou carinho. deitou a cabeça no colo vazio, encaixou a cabeça no colo feito sob medida, deitou silêncio, falou ouvidos, sorriu de olhos abertos, entrelaçou dedos, misturou esperas, sorriu estrelas, sonhou mentiras, viveu possibilidades, viveu amor,
viveu.
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o degrau pode ser pequeno. é só subir para se dar conta que o lugar possível é bem abaixo.
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respira comigo bem devagarinho? puxa o ar, não pensa no que você tá fazendo, só por agora, vai. agora solta. puxa de novo. solta. agora faz bem rápido, com força. sente o coração acelerando. solta, puxa, solta, puxa, solta. abre bem a boca pra sair com tudo. fica com os olhos bem abertos. viu como é sentir sem saber explicar?
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Um jogador de futebol que pendura as chuteiras no auge de sua carreira, porque sabe que não será capaz de conquistar um campeonato como aquele novamente. Um jogador de futebol que bota a bola embaixo do braço, recolhe meias, chuteira, calção e camiseta, olha o estádio em volta, sente o coração acelerar compartilhando a euforia da torcida, vê a lágrima se pendurando nos olhos, respira fundo, levanta a taça e grita desesperadamente. Um jogador de futebol que entra no vestiário ainda com o som da torcida ecoando na cabeça e pensa que ainda pode continuar. Um jogador de futebol que acorda no dia seguinte a primeira derrota, no novo campeonato, depois de ter resolvido continuar, e lembra da torcida, a mesma torcida, agora silenciosa, nem aplaudindo, nem vaiando, silenciosa, como se dissesse: esse cara já fez o que podia, não serve mais. Um jogador de futebol que não se deu conta que um dia não é eterno, uma vitória não é eterna, um dia como aquele não tem continuidade. Um jogador de futebol que ouve torcedores no aeroporto, após a primeira derrota no novo campeonato: velho cuzão.
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“sinto o tempo com uma dor enorme. é sempre com uma comoção exagerada que abandono qualquer coisa. o pobre quarto alugado onde passei uns meses, a mesa do hotel de província onde passei seis dias, a própria triste sala de espera da estação de caminho de ferro onde gastei duas horas à espera do comboio — sim, mas as coisas boas da vida, quando as abandono e penso, com toda a sensibilidade dos meus nervos, que nunca mais as verei e terei, pelo menos naquele preciso e exacto momento, doem-me metafisicamente. abre-se-me um abismo na alma e um sopro frio da hora de deus roça-me pela face lívida.”
fernando pessoa, livro do desassossego
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minha válvula de escape tem mais de um metro e setenta, cabelo preto, sobrancelhas firmes e um sorriso que cura frio na barriga.
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às vezes te odeio por quase um segundo
depois te amo mais
teus pêlos, teu gosto, teu rosto, tudo
tudo que não me deixa em paz
(Herbert Vianna)
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1) acreditar na força que tem
2) reprimir seguindo a boiada
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quando o querer e o precisar se misturam a ponto de serem exatamente a mesma coisa: estar por perto. deitar o corpo e a cabeça e as idéias com o intuito de acalmar até mesmo a terra que treme e destrói tudo o que vê pela frente, cima, lados todos. pessoas morrem e o crucifixo fica em pé e a mídia ‘espetaculariza’. jogar o corpo naquela cama e ficar ouvindo uma voz que acalma. não falar nada. descansar as cordas vocais, as idéias, as perturbações, os medos, a espera, a felicidade e a tristeza. deixar os dois opostos no mesmo barco e não dar bola. dormir fora da minha cama, sem o meu quarto me olhando. naquela cama, sentindo o olhar sem tremeliques de existir. assim se nota a abstinência reinando absoluta. não tenho conseguido pensar direito. a confusão do que acho se perde na confusão do que eu ouvi que se perde na confusão do que eu expliquei que se perde ainda mais na certeza do que eu sinto. queria falar exatamente como é, sem ter que falar nada.
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Fico pensando se o corpo é como o carro. Quando acende a luzinha da reserva de combustível ainda aguenta uns dez quilômetros em movimento. Quando o corpo reclama e parece que vai desfalecer, ainda aguentamos mais um pouco? O coração tá apertado, apertado, como se não fosse conseguir. Na piscina, a última braçada é a mais feliz.
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Na piscina eu tenho que bater o braço, dar a volta lá em cima da cabeça, bater as pernas, respirar virando o corpo, puxar a água quando o braço estiver embaixo, manter o corpo esticado o mais acima da água possível, olhar para baixo, seguir a linha do chão, fazer bolhas com o nariz e alternar tudo isso com outros três tipos de nado e sei lá quantos exercícios. Quando penso no que estou fazendo, erro. Quando penso nos movimentos todos, erro. É o que sempre me acontece quando penso no que estou fazendo no momento em que estou fazendo: erro. O automático, instintivo, intuitivo, ou sei lá que nome tem, me parece mais seguro. Ou não. Mais natural, apenas. Gosto de brincar com a minha natureza, como se as vontades fossem mais necessárias que a realidade. É o prazer que eu tenho em te ver saindo pela tangente.
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- Você gosta de ler, né?
- Gosto.
- Gelo e limão?
- É…Coca normal, tá?
Vai andando de costas, com o bloquinho na mão e o sorrisinho no rosto.
- Seu amigo não bebe?
Fala apontando pro livro.
- Só whisky.
Sorri.
Continua lendo, pede uma cerveja, fecha o livro, manda mensagens pelo celular, coloca a cerveja no copo, não olha pro garçom, mas sabe que ele continua olhando.
- Vou ao banheiro, você olha o meu copo?
- Claro, olho tudo o que você quiser.
Não disfarça o riso, atravessa o bar todo até o banheiro, se equilibra pra acertar o xixi na privada sem molhar a borda, olha rapidamente no espelho, sorri mais uma vez e volta pra mesa.
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têm dias como hoje que eu não sei direito o que pensar. não tem uma dúvida que fica martelando com perguntas que brotam sei lá de onde em sequência. eu simplesmente paro e não consigo organizar as idéias. não há idéias. tento me concentrar em algo, mas nada acontece. nenhuma idéia, tudo em branco. eu às vezes gostaria de ter planos, traçar planos, fazer planos como tantas pessoas me contam que fazem. hoje eu sei exatamente o que eu quero em apenas um setor. mas esse setor não depende absolutamente de mim. e aí eu me vejo cheia de explicações para algo que eu desconfio ser inexplicável. a palavra ‘inexplicável’ é quase sempre remetida a algo sobrenatural, mágico, encantado, criado. não é isso. é apenas algo que eu sinto, que eu tenho certeza que sinto, ao menos hoje, e sei que quero dar continuidade. não sou capaz de descrever exatamente e arranjar argumentos e convencer exatamente. eu apenas sei o que quero. sei exatamente. talvez não seja suficiente para a realização. talvez seja suficiente sim. otimismo e pessimismo são idéias um pouco simplistas. fico com o leque de possibilidades que o vazio, que tomou meus pensamentos, questionamentos e análises passo a passo, me proporciona. eu sei bem o que me aguarda nos próximos dias de silêncio e falta, mas não cheguei neles ainda. a dor vai dando sinais, mas chega mesmo é de uma vez. e de alguma forma hoje eu pareço preparada. a ilusão é um alimento potente na sobrevivência. excluindo, claro, todo o grau de dramaticidade que essa frase pode conter. eu sei exatamente o que eu quero.
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não importa, sabe? não importa porque eu tô escrevendo. eu não sei as razões das coisas. não me importa. e eu nem sei porque tô aqui tentando explicar qualquer coisa. não importa. nada disso realmente importa. eu sei o que me faz feliz. é o bastante. e talvez nem seja ‘feliz’ a palavra.
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- Não existe mais felicidade.
(disse depois de abrir a janela do meu quarto e perguntar se eu tinha chorado a noite toda)
(sentou um segundo na minha cama, olhou para a janela, levantou e foi até a estante pegar a foto que eu tô no colo da minha avó, ainda bebê, e a criançada toda, ao fundo, na piscina. derrubou o outro porta-retrato, levou a foto pra perto dos olhos, suspirou e disse que aquele sim era um tempo bom)
- Naquela época eu não tinha tempo pra ficar assim olhando pela janela. Hoje, sobra.
(devolveu a foto pro lugar, olhou pro outro mural e perguntou se era ele, ali do lado do meu primo, apontando pra foto que eu pendurei na parede)
e continuou:
- Você e seus castelos de areia…
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meu estômago tá revirando e eu não vou conseguir dormir nunca mais. depois de chorar as merdas de sempre, abri a gaveta no escuro e peguei um remédio daqueles que liberam o nariz para o ar entrar de uma vez. pinguei uma, duas, três gotas em cada buraco e senti a merda ainda maior. remédio errado. pinguei um remédio qualquer para aftas que tem gosto de hortelã e me ardeu ainda mais os olhos. tava escuro e eu não vi. acontece. sabe o que mais acontece? acontece de sempre as coisas caminharem pela mesma trilhazinha filha da puta. tô cansada disso. não sei fazer nada de bom nessa vida, agora pra cagar tudo eu tenho um dom realmente incrível. uma palavra na hora errada ou todas as palavras em todas as horas que são sempre erradas. prazer, juliana. me revolta pensar que não vou conseguir dormir de novo apesar do sono gigantesco que eu tô desde as cinco horas da tarde. me revolta lembrar do balanço do ônibus que me obrigou a ficar fazendo movimentos idiotas para não capotar encostada no vidro. é cansaço físico que me dá sono? então, vamos lá, correr, nadar, andar por aí. fiz tudo nos conformes. e aí? adiantou do que? aqui estou eu, revirando na cama, ouvindo as vozes deles todos. sabe aquelas vozes que são ensurdecedoras apesar de você ter a exata noção de que foi no silêncio que a dor latejou com mais força dentro do seu corpo? eu odeio não ter chance alguma. queria tanto dormir. meu nariz está doce, minha garganta está doce, os meus dedos estão melados e doces. não adianta lavar. não adianta curar a porra da dor abrindo a gaveta e tateando no escuro. não cura. não faz dormir. são tantos nãos que eu às vezes esqueço que existem outras opções. eu sei fazer as pessoas se afastarem assustadas. eu acho que sei escrever. eu não sei esquecer a merda de um olhar.
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sete dias são o meu limite. depois me sinto sufocada, falta o ar, a vida, o rumo, o sorriso. um dia a mais que eu aguento é um dia a menos de oxigênio turbinado. vou dormir e penso: não vou conseguir. acordo e penso: não vou conseguir. no meio da madrugada os pesadelos se misturam e eu acordo com medo do escuro. tenho ainda uma pontinha de esperança, mas ela quase não pode ser vista soterrada por tanta razão que grita por aí. as pessoas dizem muitas frases prontas. tenho ficado em silêncio. o olhar triste é adulto. passaria por cinquenta anos caso não me pedissem o rg. tenho pintinhas que sorriem pra mim em segredo.
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A dona Claudina comia um pote cheinho de pipoca vendo televisão. Primeira, segunda e terceira novela. Depois, o Ronnie Von. O pote quase vazio e ela ainda remexia os milhos que esqueceram de explodir. Depois, ria como se tivesse feito arte de criança. No dia seguinte, a gota atacada. O jeito era esconder os pés inchados dentro das meias de lã. Preta, azul marinho, branca ou amarelinha.
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