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sim,

as coisas acontecem, anos depois.

eu escrevo pra guardar a sensação. um dia, ou muitos deles, precisarei dela.

achei bonito:

(…)

então eu digo sobre o buraco,

sobre pessoas estranhas que não entendem

juventude equivocada

pouco tempo para apenas um

tanta história e um só momento

 

e eu ainda sinto a sua falta

 

Bianca Rosolem.

o texto completo Aqui.

leminski

No ginásio do SESC Consolação. O Leminski tá por lá agora. Também.

Mais aqui. Ou, sempre, por aqui.

Contito novo.

     Encantei-me com a volta que ele dava por cima da letra “o” riscando o quase círculo de ponta a ponta. Foi assim que me apaixonei pela primeira vez. Ricardo tinha seus trinta anos e eu não passava de uma fedelha beirando a adolescência. Primeiro vi a letra, depois o cabelo ralo caindo pelos olhos. Dizem que amor à primeira vista acontece de vez em quando entre os seres humanos, e eu até já tinha lido a respeito em alguma revista, mas na prática mesmo nunca confiei em tal idéia. Para mim, amor, paixão, encanto, se davam após dias de conversas, trocas de olhares, provocações e chutes na canela. É assim que uma menina demonstra carinho pelos meninos antes de começar a envelhecer: com chutes na canela.

     Sem sequer saber a cor dos olhos de Ricardo, quem dirá passar pela experiência trepidante de trocar olhares com um homem de barba e bigode, lia as palavras de Fernando Pessoa, apresentadas pela caligrafia de Ricardo num desses cadernos com margem, linhas próximas umas das outras e a capa molenga, de brochura, e sentia o corpo tremelicar como se estivesse comendo novamente o brigadeiro na panela da mamãe.

     Incrível a sensação. Gostava especificamente do pseudônimo Alberto Caeiro. Os dois nomes terminados na letra “o” redondinha e com o traço do meio saindo pelo canto superior direito. Aquilo sim era um olhar. Desenhassem uns cílios sobre a letra e ela piscaria levemente para mim.

     Foi Ricardo quem fez as honrarias da casa e me apresentou a literatura. Edgar Allan Poe, John Fante, Clarice Lispector e trilhares de escritores encadernados em brochuras quase intocáveis que ele guardava em um baú enorme no seu quarto. Quando mamãe me deu o primeiro caderno e me perguntou se eu gostaria de ter aulas particulares de literatura, não hesitei. Confesso que me apaixonei mais pela letra miúda que ocupava as centenas páginas de papel do que pelo conteúdo em si. Eram escritos e mais escritos de amor que se completavam entre linhas e margens e a capa mole do caderno verde de brochura que iluminavam meus olhos sem que eles tivessem tempo de compreender tamanho amor derretido em forma de palavra.

     Folheei depressa um dos cadernos trazidos por mamãe e pedi logo que contratasse o tal professor. O cabelo ralo caindo na testa, a bochecha rosada marcada por imperfeições na pele, as orelhas grandes e os olhos negros, gigantes, cobertos pela pálpebra leve e cílios longos batiam nos óculos a cada mínima piscadela que dava ao se apresentar no primeiro dia de aula. Assim como uma voz se faz pessoa ao ouvirmos o timbre pelo telefone e nos aproximarmos em determinado momento, as letras todas se embaralharam de uma vez, e as palavras se fizeram pessoa.

     Poderia desenhá-lo em formato de “a”, “e”, “i”, “o” ou “u”, e somar consoantes e construir sonetos sobre sua pele imperfeita. As aulas prosseguiram por longas tardes de inverno entre a devorada de um novo caderno e o encantamento de um antigo poema copiado em mais e mais linhas. Preso em seus devaneios, Ricardo nunca criou uma só estrofe. Ricardo era copiador. Escritor dos escritos dos outros. Bem que tentou fazer poesia e falar dos meus cachos ruivos. Rimou amor com dor, saudade com vontade, paixão com solidão, mas não me arrancou um suspiro sequer. A pessoa não pode ser mais do que é. Ricardo é escritor, letrista, copiador. Gosto quando ele acaba o texto, respira com os dedos, tira a caneta do papel, aponta o bico na direção da linha, põe o ponto final, e retoma a última palavra para pingar os pingos nos “is”. Redondinho, sentido anti-horário, deixando um pequeno vácuo para a letra também respirar.

namorando os livros novos que chegaram.

depois de uma seqüência feminina, os homens me falam: Marcelo Rubens Paiva e Mário Bortolotto. não podia ser melhor. final de semana inteirinho em casa. nem um narizinho pra fora. assim é que é.

já é tarde, é sexta-feira, quase sábado, e eu vim numas de escrever qualquer coisa que limpe um pouco meu cérebro. qualquer coisa não existe e logo vou escrevendo o que de fato vier à cabeça. as coisas não acontecem como eu sonhei que aconteceriam. o mundo dá volta, é o que dizem, mas o que eu sinto mesmo é um ponto fixo que me puxa sempre pro mesmo ideal, dias e dias depois. anos, meses, horas ou o que quer que marque o tempo. não sei dizer por qual razão as coisas deixam de acontecer e me sinto cada dia mais sozinha. eu sei que não basta fechar os olhos e desejar um mundo ideal. eu sei muito bem disso. aprendi lá atrás em algum dia da minha adolescência estranha. lá eu já construía idéias no papel que não passavam de aventuras da imaginação. eu construí um castelo cheio de detalhes e planos a, b e c, mas ele não vingou, o tempo passou e eu percebi o quanto sou criativa. gostaria de ser mais prática às vezes. o fato é que eu construí um ideal que não existe e se existiu alguma vez não teve forças para continuar. até aí tudo bem, construo um novo raciocínio e meio que compreendo. o que não se resolve é o fato de algo me fazer voltar sempre para isso. não entendo. por que uma merda de uma intuição me faz voltar e voltar e voltar? eu sei que em alguns momento eu decido completamente pela distância absoluta dessa volta. e entendo que é o melhor que eu posso oferecer a mim mesma. já decidi isso algumas vezes. mas aí vem a merda da intuição e me diz que dessa vez vai ser diferente. ei, eu sei que não vai. eu sei racionalmente e emocionalmente, então me larga, por favor. me deixa dormir, me deixa andar por aí, me deixa ouvir músicas, me deixa ler livros, me deixa vagar pela internet livremente, me deixa ver filmes, me deixa viver, me deixa acreditar no que eu ainda não conheço, por favor.

Minha amiga.

Na época do colégio eu tinha uma amiga que colecionava gibis e revistas capricho. Ficamos mais velhas e ela virou jornalista como dizia desde menina. Ela, já entendida de política, cheia das estrelinhas vermelhas penduradas na bolsa, sabia o que era e o que queria ainda ser. Era como essas pessoas que parecem saber sempre o que falar. Eu a admirava. Além da política, dos gibis e das caprichos, ela ainda era atriz. Sim, atriz dessas que reclamam da cicatriz na testa que poderia atrapalhar sua carreira. Cara, carreira? Sabe, uma pessoa que pensa em carreira, que lê, tem uma pasta de poesias, camisetas do legião urbana, um irmão músico, escreve cartas, usa bolsas de pano atravessadas no corpo, fala com firmeza, acredita no amor? Ela já era assim, lá pelos 14, 15 anos. Óbvio que eu a admirava. Pra melhorar, hoje, ela toma cerveja. Se eu pudesse escolher lugares para voltar no tempo, com certeza eu estaria subindo as escadas da casa dela, abrindo a porta cinza de madeira, conversando com a mãe dela, comendo jabuticaba no pé, lendo gibis no banheiro enquanto faço cocô (sim, ela tinha uma cestinha de gibis no banheiro), conversando sentada na cama e esperando, sem a menor pressa, que todos aqueles sonhos aguardassem a gente no futuro. 

o Bortolotto:

Dia 4/11/2009

(….)

Eu sei que os copos de whisky se materializam nas minhas mãos de uns tempos pra cá. E sei que fico louco, bêbado e carente de madrugada. E sei que ligo pra mulheres de madrugada esperando alguma espécie de afeto. E sei que me arrependo no dia seguinte. E sei que mesmo assim acho poético ficar completamente bêbado e ligar de madrugada. Isso prova que ainda tô vivo e me emocionando com verdade. Não me interessa o caminho do meio e da racionalidade. Só me interessa esse pulsar descompassado, essa embriaguez emocionada. (….)

(Aqui: Atire no Dramaturgo - Bortolotto)

RIA (R-I-A)!

e quem me segura nessas horas? o humor, é claro. resposta pronta, copiada e encarnada na vida real. o sol ajuda nessas horas. umas boas palavrinhas que saltam sei lá de onde também ajudam. faço piada e rio de mim mesma, é assim que acontece. não dá tempo de meter o chicote nas atitudes já tomadas. porque o sol não deixa e só por isso. se estivesse chuviscando aquela água fria e feia de são paulo eu estaria cutucando a ferida com algo afiado e limpando as bordas com alguma colônia vagabunda. assim a vida pode ser quando o humor escapa e as nuvens ficam escuras. por enquanto faz sol e eu sorrio quando abro a janela do quarto. ontem eu dormi tendo esperança e fritando de calor. o vai e vem na cama sentindo o calor é infinitamente mais feliz que o vai e vem na cama escondida embaixo do edredom com a cabeça fritando de medo. a esperança se materializou em não-possibilidade e eu só quero dormir feliz com o meu time na liderança. eu ando escolhendo as brasas que podem virar fogo. assim é mais prazeroso. e viva o futebol. e viva o meu pai que me colocou nessa desde pequena (com o time certo).

não me sinto mal com a tentativa, isso é ótimo. não me sinto idiota. só um pouquinho.

na rua as coisas parecem mais possíveis, foi o que eu quase disse ontem no meio das cervejas. acho que disse que tinha aprendido isso com o bortolotto. ou disse algo do tipo, quase isso. então na rua as respostas não aparecem em forma de email respondido e/ou email surpreendente, mas as possibilidades se multiplicam. é uma idéia atrás da outra confabulando. o sol inspirador, as muitas pernas como testemunhas e o céu inteiro gritando amém. assim me parece. hoje é dia de abafar a saudade e celebrar a nostalgia. jájá.

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