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Archive for maio \30\UTC 2011

exercício. 4

Sobre as pausas

Ele me disse coisas horríveis pelo telefone. Entrei na casa da mamãe com a mochila nas costas e os pacotes nos braços. A mesma fisionomia cansada, a agitação das mãos, os olhos que nunca me encaram e ela me ajuda a colocar tudo sobre a mesa da cozinha. Aponta para o relógio e resmunga o atraso do papai. “Acho que ele foi fabricar o queijo ralado”. Sinto o cheiro de tomate refogando no alho e lembro do quanto papai sempre demorou no mercado. Ela segue falando sem pausas, reclama do vizinho que parou o carro de novo na frente da nossa garagem, abaixa o tom da voz para contar que ele chegou ontem com outra mulher diferente, a terceira mulherzinha da semana, fala se aproximando, corre para abaixar o fogo, avisa que o almoço foi improvisado, é o que tinha no armário, a situação continua difícil, a aposentadoria do seu pai não dá pra nada, me olha pela primeira vez nos olhos.

Tínhamos nos desentendido no café da manhã, liguei na hora do almoço e ele me destruiu pelo telefone. Disse que não me desejava mais, mãe. Que não conseguia ter vontade de me ver. Fiquei muda, não consegui reagir. Ele desligou, eu fiz a mala e saí o mais rápido que pude. Não posso olhar pra ele de novo.

O papai chega. Eles se olham e ele me abraça. A mamãe levanta rapidamente e encosta de novo no fogão. Parece brincar com as chamas, virando o botão para esquerda e direita como se tentasse chegar ao ponto ideal do fogo. Ela não me olha chorar. Eu não consigo narrar a ordem das coisas, falar tudo que ele me disse, me desculpar, pedir ajuda.

Coloquei gerânios no seu quarto, mamãe interrompe meu choro sem som. Sorrio. Que bom que você está aqui. Seu pai não consegue mais levar o Tobi para passear. Claro que eu consigo, ele diz desfazendo o abraço. Quase caio. Ele dá um assobio fraco e o Tobi entra correndo na cozinha. Me deixo cair ao lado dele. Sou abraçada pela segunda vez em menos de cinco minutos. Levanto como se nunca tivesse conhecido o chão, mal seco as lágrimas e caminho tentando acompanhar os trotes do Tobi. Ele era ainda tão pequeno quando fui embora.

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por aqui

tão pouco por dizer. vou acabar descrevendo cenas. se bem que tenho reparado pouco também. outro dia fui num show e depois fiquei tentando lembrar das pessoas que tavam lá. não lembro. simplesmente não notei. estou em vários lugares, mas a cabeça parece ficar perambulando o meu quarto antes de dormir. é estranho. quero descansar. mesmo quando acordo descansada, quero descansar. a vida é tudo aquilo que eu não sonhei ou imaginei ou criei em imagens platônicas. e tudo bem. seguem todos. arranquei as correntes do pé. não tive culpa, sabe, não há culpa, não há nada. é só nada. e o dia seguinte. o próximo passo torto e meio sem querer querendo. quero sentar quieta no sol e ficar e ficar e ficar. sem sentir nada. tem uma cena bonita: o cara mais velho abraçando a menina segura perdida perto da porta. nove meses depois ela morre. era um filme. continuo com febre. me equilibro em comprimidos de resfenol genérico. no final de semana vou trabalhar em são josé dos campos. vai ser bom: gosto de hotéis. depois folga. depois jundiaí. vai ser bom.

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marco aurélio

todos são marco aurélio. eles vêm na minha direção, cruzam comigo pelas calçadas. estudamos juntos na sexta série. e nunca mais. nunca beijei marco aurélio. mas marco aurélio está em todos os rostos na rua. marco aurélio é nome bom pra ficção. tem sempre um marco aurélio nas novelas. marco aurélio é lembrança que reaparece no tempo real da trama. e a mocinha enche a boca pra dizer: marcoaurélio. é nome bom. nome bom pra memória antiga, dos tempos do colégio. no caminho de ida, pensou em sexo. eu vi pelo balãozinho pendurado na cabeça. sexo, saudade, sexo. não transava desde fevereiro. ou seria janeiro? fazia tempo. quando se pegava calculando o tempo, mudava de pensamento. empurrava o tesão repentino pro colo da pessoa ao lado. funcionava. um prato de macarrão ocupava o espaço por completo. a pessoa do lado se punha a suspirar. sexo bom é tão bom. ficava tentando calcular quantas vezes seria o ideal por dia. por dia? poderia. marco aurélio deve ter casado com alguma amiga de infância. alguém que estudamos também. deve ter três filhos. ou nenhum. marco aurélio não parecia fértil. marco aurélio deve ter virado piloto de helicóptero. com aqueles óculos escuros grandes. refletindo o sol. escondendo a vontade que marco aurélio tem de ser menos quieto. ser bonito. bonito como andré. todo andré é bonito e forte.

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o inferno sou eu.

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Exercício. 3

Antes de cair na água, Felipe comparou o nadar ao amar. Eu nunca tinha pensado nisso. O professor apita e entro também. Na piscina eu tenho que bater o braço, dar a volta lá em cima da cabeça, bater as pernas, respirar virando o corpo, puxar a água quando o braço estiver embaixo, cinco segundos, manter o corpo esticado o mais acima da água possível, olhar para baixo, seguir a linha do chão, fazer bolhas com o nariz, dois segundos. O professor apita e começamos outra sequência. Outros três tipos de nado, quatro piscinas, e dezenas de exercícios, sessenta minutos. Quando penso no que estou fazendo, erro. Quando penso nos movimentos todos, erro. É o que sempre me acontece quando penso no que estou fazendo no momento em que estou fazendo: erro. O automático, instintivo, intuitivo, me parece mais seguro. Nadando eu penso nele. Outro apito. Agora estamos de costas. Não tem mais a linha do chão, olho os reflexos do céu no teto de vidro enquanto vejo meus braços passarem rapidamente pelo meu campo de visão, primeiro o direito, depois o esquerdo. Quando comecei a nadar eu via o rosto dele do outro lado da piscina. A última vez que nos vimos ele disse que não gostava mais de mim. Uma semana depois eu descobria a piscina. É como se toda vez que eu ficasse sem ar, no meio da piscina, eu tivesse ele do outro lado. Ele foi embora, pegou o computador, as roupas, alguns livros e nunca mais voltou. Sem cena de filme, recaídas ou arrependimentos, me deu um beijo na testa e se foi. No primeiro dia, anotei lembranças no bloquinho que carrego na bolsa.  De manhã, de tarde, de noite. Palavras repetidas, sonhos, desejos, saudade. A falta de alguém é feito um buraco que vão cavando aos poucos dentro da gente. Sempre tem mais terra pra ser tirada. No segundo dia, passei a anotar diálogos que tivemos durante os dois anos e alguns meses de convivência. No terceiro e quarto dias, resolvi registrar os conselhos que ouvia por aí. “apague o número dele do celular”, “queime as fotos dos porta-retratos”, “corte o cabelo, mude o visual”. No quinto dia, misturei cerveja com vinho e vomitei toda a dor na privada do bar. Acordei curada e fui dormir no sexto dia com os olhos inchados de tanto chorar. Não tinha cura. No sétimo dia, comecei a natação. As lembranças dos dois anos e alguns meses de convivência ficam passando na minha frente no fundo da piscina. Revejo cada detalhe enquanto os braços estapeiam e as pernas dão pontapés na água. O Felipe diz que eu fico linda de toca e desembesta a falar sobre os músculos que cada exercício trabalha. Ele diz que o amor requer essa força de braços e pernas que acabam se adequando à água. E que quando dá certo, enquanto dá certo, a sensação é a mesma de quando respiramos no meio da piscina e vemos o outro lado lá longe sabendo que vamos chegar lá, sentir o alívio, e começar tudo de novo.

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eu fiz um planejamento: te deixar em paz. me deixar em paz. fui ficando sozinha, falando menos, sonhando menos, cortando os sonhos pela raiz, deixando de dormir, fui andando rápido, pedalando com atenção, fui me equilibrando, sentindo o vento na cara e o cansaço e a vontade de não parar mais, pra não parar e me deixar cair, desequilibrada, cheia de amor. resultei em: eu não consegui. caí. sou a fragilidade em pedaços de corpo. não sou capaz de mudança. não sou capaz de coragem. sou só a capacidade de errar. a capacidade de ser só. a capacidade de me trancar no quarto e reconhecer a dor do maior tamanho que pode existir me apontando o dedo na cara. um amor que pede raiva e de volta dá costas e ombros pra cima e pra baixo: a indiferença. eu sempre tive medo do presente. meu assombroso presente cheio e lotado de realidade. ainda não entendi como é sem você.

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procura-se:
vergonha na cara
orgulho
você

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