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Archive for fevereiro \27\UTC 2009

4-4-2

Driblar o pensamento: comendo
Driblar a ansiedade: torcendo
Driblar o mau humor: bebendo
Driblar a preguiça: comprando
Driblar o medo: cantando
Driblar a saudade: relendo
Driblar o amor: mentindo

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Eu tinha 16 anos quando a conheci. Recentemente mudada para o interior de São Paulo, ainda não tinha me adaptado à vida nova com passarinhos cantando na janela, uma estrada de terra que mal passavam os carros quando chovia e pessoas desconfiadas que não falavam com alunos novos vindos de outra cidade. Engraçado como as pessoas do interior são desconfiadas. Não sei se por timidez ou qualquer outra coisa, só sei que o grupo de adolescentes que entravam para o terceiro colegial não abriam sequer um milímetro de espaço para quem chegava. Provavelmente nascidos debaixo daquele teto, do mesmo colégio, e acostumados com os mesmos rostos, os meninos e meninas sequer me olhavam. Sabe a sensação de invisibilidade? Mais ou menos isso.

Devia ser aula da Mi, da Henriqueta ou do Pitágoras, o dia em que falei com ela pela primeira vez. Não sei bem a ordem das coisas. Ela era diferente deles. Me lembro das longas tardes encostadas no muro da biblioteca infantil. Sei que esse lugar era novo e tinha um outro nome que não apenas biblioteca. E sei que era longe das salas, longe das pessoas e longe da segurança em que vivem jovens classe média. E não falo aqui da segurança física ou dos seguranças que circulavam disfarçados pelos corredores. Falo da segurança típica desses adolescentes que têm a certeza que seus umbigos coordenam o mundo. Não que eu os odiasse. Pelo contrário, só me cresciam as inquietações e questionamentos nessa época. O que, claro, era alimentado por esse comportamento que eu, de alguma forma, observava. Falando assim parece até complexo de superioridade. Garanto que passava longe disso.

Ficavamos as longas tardes ali sentadas imaginando a vida que gostaríamos de ter no futuro. Engraçado que não me lembro de nenhuma outra amiga com quem eu falasse tanto desses sonhos de futuro. Ou escutava. Ela era ainda mais sonhadora que eu. Apesar do rosto sério, puxando pro alemão. Ela falava de Marte, da Lua, de viajar por aí, pelos planetas, de estudar as formigas, de literatura, de contos, de um mundo que parecia pura fantasia, mas com a diferença da consciência que ela tinha das possibilidades. De como se fazer possível. Conversavamos horas. Almoçavamos na cantina. Assistíamos o futebol no clube que dava direto para os fundos daquela parede. Eu falava dos meus amores. Ela falava do dela. Só tinha um. Depois outro. Um professor. Lembro tão bem dos dois. E do que ela esperava deles. Lembro ainda mais do nosso insucesso. De mais questionamentos ainda nessa fase. Não sei bem o que mudou de lá pra cá. Quanto às respostas.

Hoje ela namora. E estuda, de fato, as formigas. Hoje ela mora longe. Já não durmo mais na sua casa com os lençóis impecavelmente esticados pela mãe, ainda mais alemã. Hoje nos falamos nos aniversários. Ainda falta o dinheiro pra longas viagens. Não conheci os tais caras da atlética da faculdade já encerrada. Ela, inclusive, já começou outra. A que ela prometera começar. Disso eu lembro. Ainda não construímos o nosso colégio. Juro que tínhamos muitos projetos para a nossa sociedade. Esportes e artes. E um colégio bem diferente daquele. O das madres.

Hoje ela faz aniversário. Não nos vemos desde 2007, talvez. Não sei exatamente. Não sentamos mais encostadas naquele muro. Eu sequer lembro o bendito nome daquele lugar. E sinto uma falta gigantesca. Dela. De nós. Dos armários coloridos. Da Mi. Do André. Das aulas à tarde com o Nicola. Do dia que ele chorou enquanto assistíamos Vidas Secas, sem falas e em preto e branco. Foi nesse dia que eu me apaixonei por literatura. Me perguntando porque ele chorou.

Hoje liguei pra ela. E desejei felicidade. E é de verdade. Tudo o que eu desejo: felicidade. Daquela, mesmo que não tenhamos definido. De hoje, sempre em dúvida. E, claro, pro nosso tão sonhado futuro, absoluto. Parabéns, Ná.

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(deitada no colo dela, eu ouvia verdades que poderiam machucar. pausadamente, com a voz doce, ela passava a mão no meu cabelo e dizia o que eu precisava ouvir. ainda que doídas, as palavras eram suspiros de vida. mesmo que acabassem com as possibilidades. sem olhar pra ela, sabendo que ela olhava pra mim, eu ouvia atentamente. sem tremeliques. sem desespero. sem pensar em morte ou perda – que, aliás, defino exatamente com o mesmo grau de sofrimento. assim como o nosso amor, meu e dela, nada questionável, o que ela dizia parecia ganhar ar de verdade absoluta dentro de qualquer sentimento ainda inquieto. ora sem me olhar, me comparava a uma adolescente. em grau de diminuição, claro. menosprezando. não era o olhar surpreso/brilhante de uma jovenzita. eram frases bobas que eu soltava sem pensar que me colocavam de volta praticamente às fraldas. um pouco mais. com desejos. eles todos perdidos na fantasia. triste tal condição, eu pensava. perguntas idiotas que ela me respondia com verdades. e eu parecia absorver de fato. foi o que aconteceu, de fato. quando um braço ou perna tremia, se estrebuchando ainda, ela quebrava logo o raciocínio com a certeza de que eu faria tudo para continuar acreditando. porque eu queria. e de repente a vida também depende disso. do que queremos e forjamos como verdade. sempre em guerra. sempre em carência. sempre sempre em vozes que gritam sobre os pensamentos)

Por que você se importa? Por que? – me interrogava.

(quase choro)

Não é o seu mundo. Não são elas. Nem eles. Você precisa mudar. Se mexer. Precisa – me estapeava ainda em pausas medidas.

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já não me preocupa mais o que vai acontecer. já sei o que é, o que foi e o que não será. não é mais uma questão a ser resolvida. são milhões de coisas juntas. que não se resolvem. que viram brigas gigantescas. que não se explicam quando eu tento falar, falar e falar. o diálogo pode parecer a maior insanidade de todas às vezes. e eu tento me calar e me isolar. sofrer sozinha parecia a melhor solução. perder coisas importantes dói, mesmo tratando de objetos físicos, palpáveis, compráveis. e doía falar sobre isso. e ficar sozinha, isolada, sem celular, machucou ainda mais. uma coisa nunca é uma coisa e outra coisa nunca é outra coisa. tem a simplicidade de sentir e a complexidade de explicar. e aí voltam também as demais questões. não há a solução possível. há a carência. o medo de ser tudo errado. errada. completamente equivocada.

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o medo.

se fosse por coragem, Alice saíria correndo naquela hora. não andaria pra trás, não acreditaria na voz que falou seu nome, não seria capaz de ouvir tão baixo em tanto barulho. Alice correria sentindo as batatas das pernas latejando. cansada. se fosse corajosa, Alice fecharia os olhos e entraria no ônibus de ida. não sentiria a saliva esquentando, não prenderia as mãos na nuca, não deixaria os ouvidos se fecharem. Alice passaria pela casa colorida sem bambear as pernas.

Coisas da Gaveta – Eduardo Baszczyn

“é por causa do medo que muitos não voltam para abrir o porão. andar pelo silêncio. tatear pelo escuro. guardar tudo em caixas. é por causa do medo do cômodo sempre trancado que muitos permanecem fantasiados. máscaras cobrindo o verdadeiro rosto mesmo depois dos dias de alegria.”

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Clarice.

você compreende, não é, que eu não posso gostar de você a vida inteira. C.L.

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entramos andando em diagonal rumo à mesa vazia na ponta esquerda do palco. ponta esquerda do palco é a forma bondosa de dizer ponta esquerda de um espaço, longe do palco, fora do alcance da visão do comediante, perto do banheiro e mais perto ainda do bar. O bar. isso não é de todo ruim. pelo contrário. o garçom tímido com cara de bom moço do interior estava sempre à disposição para nos servir imediatamente. chopp claro. mais um chopp claro. uma porção de fritas com molho de queijo, porque os olhos são maiores que a boca e o raciocínio muitas vezes demora para ser praticado. cerveja e batatinha. eis a fórmula do não vazio, da não falta e do engano da ansiedade. ansiosos, assim somos. a juventude. não me sinto mais fora do baralho. ainda jovem. ainda com expectativas. ainda querendo, desejando e querendo mais, a cada segundo. a mesa ao lado se preenche com amigos dele. sorte. às vezes ela se mostra possível. não a mesa do outro lado, cheia de estranhos. estranhos é a forma bondosa de dizer, gordos, sem graça e sem nada. basicamente esta a definição. porque continuo bondosa e nem para descrevê-los consigo usar a maldade do momento. pessoas atravessam rumo ao banheiro. pessoas circulam. pessoas vivem diante da nossa observação. ainda maldosa, por vezes. sobem alguns comediantes no palco. um, outro, constrangimento, mais outro e outro. chegam mais amigos na mesa ao lado. a mesa boa. ele reaparece. dá o ar da graça. e que graça. não há imparcialidade nos meus pensamentos. não há descrição racional nas palavras quando faladas. finalmente, ele sobe ao palco. e que graça. é o que pensamos. todos em concordância. comum a tais eventos esperados. e achados em blogs. coisa de adolescente, diria meu pai. foi o que realmente ele disse quando contei que estava apaixonada. APAIXONADA. em letras garrafais conforme o protocolo das adolescentes que preenchem pastas com fotos e notícias do ídolo. não é o caso. garanto. falando a mim mesma e ao meu pai. apaixonada. com letra minúscula mesmo e meio sem graça. porque não deveria ser possível. mesmo após o contato no final da noite. mesmo após o sorriso com os olhos quase fechados. mesmo com a idéia de amor transbordando nos meus olhos. mesmo com a vontade desaparecida há tempos se fazendo presente. concreta, praticamente. foi o que delirei no elevador quando subi para o apartamento. já em casa. ainda em choque. ainda em estado elevadíssimo. apaixonada pensando nas possibilidades, no coração acelerando, na sensação quase patética de parecequenosconhecemosdesdeainfância. compatibilidade. e o olhar que quase queimou o peito instantaneamente. se bem que é típico da situação uma invenção clara da sensação, imaginação se pondo pra trabalhar. há um outro grau que descreva. quando possível. sem muitas palavras. que eu talvez tenha tentado definir enquanto minha irmã saía da baliza feita com extremo sucesso e facilitada pela saída do veículo da frente. a direção toda coordenada. como se fosse possível ter sido escrita. e pré-definida. A noite. os olhos fechando com o sorriso saltando.

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