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Archive for julho \30\UTC 2010

o velho sonho adolescente:
conhecer um cara no meio da rua
se apaixonar perdidamente
juntar os trapos
num apartamento
de poucos metros quadrados
em alguma travessa da augusta
passar dias e noites
enroscados
em cima de uma cama
rodeados de livros
e discos
ele teria um violão
de onde comporia canções melancólicas
ela faria haicais divertidos e dramáticos
uma dose de riso
duas de delírios alcoólicos

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não faço mais anotações de frases pescadas em capítulos de livros. ando carente. vejo frases emblemáticas em contos do bukowski. tipo lição de vida, quase auto-ajuda. acho que esse é o limite. ao menos é o velho bukowski. não perdi a mão. durmo menos sozinha tendo o livro na cabeceira. às vezes durmo com ele embaixo do travesseiro. de repente, ganho um sonho cheio de putaria. putaria poética, claro.

saca essa:

Estava sendo castigado por alguma coisa. O esquife? Seja lá o que fosse – o uso do meu carro, ou eu bancando o palhaço e/ou padrinho…compensavam de sobra. A raça humana sempre me causou nojo. Intrinsecamente, o que torna tudo nojento é a morbidez do relacionamento familiar, o que abrange casamento, intercâmbio de poder e auxílio, e isso, feito ferida, uma lepra, transforma-se então: no vizinho de porta, na redondeza, no bairro, na cidade, no município, no estado, no país…em todo mundo, um agarrado ao cu do outro, na colméia da sobrevivência pela imbecilidade de um medo animalístico.
Compreendi tudo, ali caído no chão, enquanto me deixavam implorando em vão.”

(conto: O grande casamento zen budista. livro: A mulher mais linda da cidade & outras histórias)

sim, eu ainda faço anotações em livros.

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ela disse:
você é especial
boa mesmo.
eu chorei
em vez de ficar envaidecida

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então começar a chorar a saudade do que não se tem por perto. tinha essa vontade de chorar litros de água até a respiração passar por todas as fases, de acelerada à calma ou quase em paz, passando pela loucura dos soluços e chiado de pulmão. mas é só uma vontade. nunca consegui chorar tudo. acabo me escorando em detalhes espalhados por ruas mal iluminadas e calçadas sujas. desde criança que as lágrimas são meio pedras dentro do peito, o nó na garganta que não desata. eu queria sentar agora ali no meio da praça e chorar tudo de uma vez. com o sol batendo na minha cabeça, as pessoas passando apressadas, os pombos cagando nos monumentos, os mendigos me pedindo moedas, esses meninos de cabelos alisados entrando e saindo da galeria do rock. larguei a natação porque eu não podia mais olhar pra aquela piscina sem lembrar o que eu disse de mais bonito pra alguém até hoje. eu também não tinha mais dinheiro pra mensalidade. todos os meses eu espero pelo último dia útil com a esperança de que o salário tenha triplicado. acho que me acostumei a esperar por coisas improváveis. pra não dizer impossíveis.

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foto: Gonzalo Cuéllar

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são duas da manhã

minha orelha tá ardendo. as pessoas esquecem de olhar para os dois lados quando não estão atravessando a rua. eu tenho pensado no que vou comer no café da manhã quando deito para ler alguma coisa antes de dormir. e eu nem tomo café. e não tenho apetite logo quando acordo. além disso, vou dormir sempre depois das duas da manhã, acordo perto das onze e vou trabalhar só uma hora da tarde. o que significa dizer que quase nunca tomo café da manhã, porque eu levanto as onze, tomo banho depois de ainda enrolar um pouco na cama, seco o cabelo e sento logo na mesa pra almoçar. inclusive quase sempre me atraso e chego no trabalho uma e quinze. eu não olho para os dois lados quando atravesso a rua. em compensação, olho para todos os lados quando estou sozinha no meu quarto. as cenas da noite anterior ficam indo e vindo na minha cabeça quando bebo mais do que quatro long necks heineken. passo o dia todo, o outro e o outro, até a próxima noite de heineken, com as cenas indo e vindo na minha cabeça. às vezes tenho amnésia. às vezes confundo apenas a ordem dos acontecimentos. quase sempre eu me envergonho desses acontecimentos. aí eu preferia que tivesse tido amnésia. melhor nem pensar no que eu sentiria caso lembrasse de tudo quando tenho amnésia. algumas coisas ruins são providenciais se analisadas por outro ângulo. eu tinha medo de escorpião quando era criança. minha mãe dizia que uma picada mataria em segundos e eu calculava que não daria tempo de chegar no hospital. então eu tinha pânico de escorpião. e eu tinha certeza que seria picada por um a qualquer momento. tenho vinte e cinco anos e nunca sequer vi um escorpião. não tenho mais medo deles. uma abelha, em compensação, pode me matar em algumas horas. tenho alergia e já quase morri mais de uma vez. uma vez fui inchando, inchando até minha vó aplicar uma injeção com as próprias mãos. dizem que ela salvou a minha vida. eu era criança e não lembro de nada. ninguém nunca me alertou quanto às abelhas. aí eu quase morri dessa vez e depois mais duas vezes, já adolescente e adulta. o farmacêutico que me salvou nessas outras vezes. e eu senti mesmo que ia morrer. foi um medo diferente do de escorpião. eu pensava no que seria não existir mais de repente. por culpa de uma abelha. e aí eu quase deixava de respirar mesmo antes de dar o tempo certo da minha garganta fechar. outro dia minha irmã foi no médico e descobriu dois remédios que devem ser tomados quando uma abelha nos picar. ela também é alérgica. cento e setenta reais e pronto, vida salva. ela já comprou e anda com eles na bolsa. eu ainda vou comprar. uma hora eu compro. então acho que eu não vou morrer picada por uma abelha. nem por um escorpião. eu nem tenho mais medo de escorpião.

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protelar
é o que eu tenho feito
desde 1984

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