Feeds:
Posts
Comentários

Archive for the ‘Livros’ Category

o Corsaletti

“o bom de morrer de amor é que você continua vivo”

(Fabrício Corsaletti em Golpes de Ar)

 

Read Full Post »

“E, naquela tarde, no convés, após definir o falso déjà vu como memória, não só de um barulho, mas de uma sensação tão comum no meu passado, eu abaixei o livro e, fechando os olhos, a vi, andando na praia. Ligeiramente bêbada, depois de quatro garrafas de cerveja. Sozinha. Num boteco miserável da vila mais próxima. Depois, já na rede, deixando-se levar pelo movimento. Aquele que dizia ser o que mais se aproximava ao do colo materno. Mas que a deixava tonta, e c0m vontade de vomitar. Fiquei com muita raiva de mim por esse dia. Por não ter compreendido que aquela cena não merecia desprezo. Talvez, no mínimo, uma boa risada. Com certeza, um beijo. Sou um otário, realmente. O que me acalma são todos os homens do mundo, que me fazem companhia. Nós, que não podemos ter mulheres malucas, porque pretendemos o certo e não o oscilante.”

(As pessoas dos livrosFernanda Young)

 

sim, eu gosto do que ela escreve. esse é um dos primeiros livros, lá longe, aos vinte e poucos anos.

Read Full Post »

pág. 54

catedral de pedras de dominó

E quando você me olhar nos olhos e disser que vai embora?
Como é que eu fico cortando tomates com lâminas enferrujadas me arriscando com louras vendo os mesmos filmes com Steve McQueen pescando coroas de açúcar num mar de escorpiões assassinos eu fico assim tubarão sem barbatana serial killer sem vítima vira-lata sangrando no deserto de Atacama baleia encalhada na savana tartaruga na highway leite azedo de ressaca logo cedo vodka na geladeira ausência de Deus sexta-feira vômito outra mulher vontade de voar lâmpada queimada passos na escada tudo o que eu chorar vai dar em nada não há nada que eu queira mais do que essa neve no solado do sapato meu grito de guerra sozinho na cozinha meus poemas como bolas de basquete que sempre batem no aro.
Tô cansado de arremessar do meio da quadra no último segundo.

do livro: um bom lugar pra morrer (mário bortolotto)

Read Full Post »

bukowski duplo

Aviso

os cisnes se afogam em águas sujas,
retirem os avisos,
testem os venenos,
isolem a vaca
do touro,
a peônia do sol,
tirem os beijos de alfazema de minha noite,
botem as sinfonias nas ruas
como mendigos,
afiem as garras,
açoitem as costas dos santos,
atordoem sapos e ratos para o gato,
queimem os quadros encantados,
mijem no amanhecer,
meu amor
está morto.

 

O bluebird

em meu coração tem um pássaro
que quer sair
mas eu sou mais forte que ele,
eu falo, fica aí dentro, eu não vou
deixar ninguém
te ver.

em meu coração tem um pássaro
que quer sair
mas eu taco uísque nele e respiro
fumaça de cigarro
e as putas e os barmen
e as caixas do mercado
nunca sabem que
ele está
aqui dentro.

em meu coração tem um pássaro
que quer sair
mas eu sou mais forte que ele,
eu falo,
fica na tua, você quer me pôr
em apuros?
você quer sacanear minha
obra?
detonar com minha venda de livros na
Europa?

em meu coração tem um pássaro
que quer sair
mas eu sou mais esperto, só deixo ele sair
de noite às vezes
quando todos estão dormindo.
eu falo, sei que você está aí,
então não fique
triste.

daí o ponho de volta,
mas ele ainda canta um pouco
aqui dentro, eu não o deixei morrer
totalmente
e a gente dorme junto desse
jeito
com nosso
pacto secreto
e é bem capaz de
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, você
chora?

Charles Bukowski – tradução: Fernando Koproski
no livro:
Essa loucura roubada
que não desejo
a ninguém
a não
ser a mim mesmo
amém

(tô com o livro que aluguei na biblioteca. é o tipo de livro obrigatório, que eu queria ter pra possíveis salvamentos no meio da madrugada ou depois do almoço. procurei na editora, nas livrarias, nos sebos e nada. esgotado. palavra feia. nessa hora tinha que existir aquilo que acontece em filmes, de alguém passar por aqui, ler isso, e lembrar, assim, de repente, que tem um exemplar empoeirado em casa, sobrando, a mais na estante, sei lá, algo do tipo, e passar aqui bem na hora, ouvir aquele estalo, o tal estalo que diz, pronto, o livro é dela. então eu receberia pelo correio. nos filmes, os caras não perdem tempo com o processo todo de como conseguir o endereço e tal. na realidade, eu poderia receber um email com a pergunta do meu endereço. ou um recado aqui no comentário. no problem.)

Read Full Post »

não faço mais anotações de frases pescadas em capítulos de livros. ando carente. vejo frases emblemáticas em contos do bukowski. tipo lição de vida, quase auto-ajuda. acho que esse é o limite. ao menos é o velho bukowski. não perdi a mão. durmo menos sozinha tendo o livro na cabeceira. às vezes durmo com ele embaixo do travesseiro. de repente, ganho um sonho cheio de putaria. putaria poética, claro.

saca essa:

Estava sendo castigado por alguma coisa. O esquife? Seja lá o que fosse – o uso do meu carro, ou eu bancando o palhaço e/ou padrinho…compensavam de sobra. A raça humana sempre me causou nojo. Intrinsecamente, o que torna tudo nojento é a morbidez do relacionamento familiar, o que abrange casamento, intercâmbio de poder e auxílio, e isso, feito ferida, uma lepra, transforma-se então: no vizinho de porta, na redondeza, no bairro, na cidade, no município, no estado, no país…em todo mundo, um agarrado ao cu do outro, na colméia da sobrevivência pela imbecilidade de um medo animalístico.
Compreendi tudo, ali caído no chão, enquanto me deixavam implorando em vão.”

(conto: O grande casamento zen budista. livro: A mulher mais linda da cidade & outras histórias)

sim, eu ainda faço anotações em livros.

Read Full Post »

Dizem que há uma expressão, “bom dia”, de que nunca fiz uso muito especial. Por que haveria de fazer? Em casa, à hora do desjejum, na realidade, os outros comensais me tratam de “Sr. Ranzinza”, ou “o Rabugento”. Mas de repente, aqui em Iowa, numa imitação de habitantes locais, transformo-me num verdadeiro gêiser de bons-dias. É tudo o que sabem dizer os do lugar. eles sentem o sol no rosto e parece que isso desencadeia alguma espécie de reação química: Bom dia! Bom dia! Bom dia! Entoado de uma dúzia de maneiras diferentes! Em seguida, todos se indagam se “dormiram bem”. E perguntam isso a mim! Dormiu bem? Não sei, realmente, tenho de pensar – a pergunta vem meio de surpresa: “Dormiu bem?” “Ah, sim! Acho que sim! E o senhor?” “Como uma pedra”, responde o Sr. Campbell. E, pela primeira vez na minha vida, apreendo toda a força de uma comparação. Esse homem, que é um vendedor de terrenos e vereador no Conselho Municipal de Davenport, diz que dormiu feito uma pedra e realmente vejo uma pedra. Estou percebendo! Imóvel, pesado, como uma pedra! “Bom dia”, diz ele, e agora me ocorre que a palavra “dia”, da maneira como ele a usa, refere-se especificamente às horas que vão desde as oito da manhã até o meio-dia. Nunca tinha refletido antes sobre isso. Ele quer que as horas entre oito e doze sejam boas, isto é, deliciosas, agradáveis, benéficas! Estamos todos desejando uns para os outros quatro horas de prazer e realização. Puxa, isso é formidável! Que bacana! Bom  dia! E a mesma coisa, quanto a “boa tarde”! E “boa noite!” Meu Deus! A língua é uma forma de comunicação! A conversa não é apenas um fogo cruzado, em que a gente dá tiro e recebe tiro! Onde a gente tem de se desviar para não morrer e fazer pontaria para matar! As palavras não são apenas bombas e balas, não; são presentinhos, contendo significados!

(Complexo de Portnoy – Philip Roth – pág. 177) 

Read Full Post »

os papéis

Ela se surpreendeu de que também ele tivesse notado o que ela via de si mesma no espelho.

– Meu mistério é simples: eu não sei como estar viva.

– É que você só sabe, ou só sabia, estar viva através da dor.

– É.

– E não sabe como estar viva através do prazer?

– Quase que já. Era isso o que eu queria te dizer.

Houve uma pausa longa entre os dois. Quem parecia emocionado agora era Ulisses. Chamou o garçom, pediu mais uma dose. Depois que o garçom se afastou ele disse num tom de voz como se tivesse mudado de assunto e no entanto o assunto era o mesmo:

– Pois eu tive que pagar a minha dívida de alegria a um mundo que tantas vezes me foi hostil.

– Viver, disse ela naquele diálogo incongruente em que pareciam se entender, viver é tão fora do comum que eu só vivo porque nasci. Eu sei que qualquer pessoa diria o mesmo, mas o fato é que sou eu quem está dizendo.

– Você ainda não se habituou a viver? perguntou Ulisses com intensa curiosidade.

– Não.

– Então é perfeito. Você é a verdadeira mulher para mim. Porque na minha aprendizagem falta alguém que me diga o óbvio com um ar tão extraordinário. O óbvio, Lóri, é a verdade mais difícil de enxergar – e para não tornar grave a conversa acrescentou sorrindo – já Sherlock Holmes sabia disso.

– Mas é triste só enxergar o óbvio como eu e achá-lo estranho. É tão estranho. De repente é como se eu abrisse minha mão fechada e dentro descobrisse uma pedra: um diamante irregular em estado bruto. Oh Deus, eu já nem sei mais o que estou dizendo.

(Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres – Clarice Lispector)

Read Full Post »

Older Posts »