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Archive for dezembro \21\UTC 2007

Por não estarem distraídos – Clarice Lispector

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria àgua deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa dos carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo, por não estarem mais distraídos.

….

Mais Clarice:

Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena.

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quase lá…

…último dia do ano no trabalho. as unhas descascam e a pressa acelera o relógio com os olhos. eu imagino que vai passar e ficarei por aí. contente. sozinha. longe. perto. cheia de famíla. cheia de mimos. e comida. e cheiros. piscina. filme. sem pensar. por um tempo. nem sentir. se conseguir…

penso na listinha do que passou. não adianta que não consigo ficar longe das manias de fim de ano. sou consumida pelas mesmices de sempre. e adoro. porque é seguro. sei que o ano foi gigante. enorme de grande. tanta coisa e tanta gente. e tanta dúvida. mais ainda certezas. quantas? muitas. sentidas e achadas. ou tentadas. no sentido da tentação talvez. quantas…

criei mais do que sempre. menos do que ainda vou. imaginei. sonhei. pulei. gritei. conheci. amei os amigos com toda a força do universo. e vivi acompanhada. o telefone tocou. atacou. consumiu. foi consumido. chorei quando ele ficou mudo. e ri quando ele vibrou. quase explodi quando o treme trem indicou mensagem. no diminutivo. cresci…

e encolhi também. lá no cantinho do quarto. em cima da cama. cheia de travesseiros e cheiros. fiquei do tamanho do feijão. e pedi pra não brotar mais nada. que o algodão engula a raiz. não dê ar. nem folhas. nem aquele caule que parece bracinhos molengas. que não são caules. e eu não sei o nome. fiquei pequenininha. senti medo e vontade de gritar pra ver se alguém ouvia e fazia justiça.

errei um montão. e pedi pra ninguém ver. falei baixinho. exagerei.

perdi…

…mas experimentei!

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de novo

A tagarela acabou sozinha.

Muda.

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Mister M.,

Na volta pra casa me deu uma vontade quase incontrolável de te escrever. No caminho inventei algumas frases e imaginei os diversos formatos. E-mail, papel, orkut, msn, telefone ou proseado ao vivo mesmo – já que você me ouve, e até parece gostar, o que me fez sonhar com a carta enorme sendo lida ao pé do ouvido. Voltei à realidade e lembrei que você não vai me ver mais. Portanto o formato ideal ainda não é o “de frente com a Gabi”. 

Cheguei em casa e corri pro computador. A página inicial é o blog querido, salvador de grandes embaraços desembaraçados em momentos de desabafo e insanidades. Como não pensei nisso antes? Espaço ideal é igual a blog. Este mesmo, que está bem colocado nos seus favoritos. Você nega, mas eu sei que está. Sei de tudo. Inclusive o que você está pensando ao continuar esse texto. “Louca!!!” (com muitas exclamações, à propósito)

Não se pergunte o porquê da carta, mister M., querido. Resolvi escrever. E queria que fosse pra você. Pra te dizer que não consigo mais as 24 horas sem ligar. Aquelas que eu prometi. Aquelas horas que terminam no ano que vem. Que está logo aí, mas que mais parece uma eternidade. Penso nisso e resolvo que não cumpro promessas mesmo. Não é hora de começar. Não mesmo. Aí vem a história do anjinho e do diabinho. E me pesa a consciência. Acabo fechando o celular. Desligo o msn. E esqueço. Por alguns segundos. Só pra acompanhar a música que toca. Uma bem brega que eu não conto pra parecer um pouco inteligente. E porque hoje eu descobri que sou especial. E importante. Mesmo que não tenha sido você a dizer.

Agora sinto o seu medo. Isso porque mal comecei a contar o que eu imaginei que contaria. Isso aqui se estendeu. Tudo se amplia quando inventa de ser legal. E isso não tem lá os controles que as pessoas normais buscam. Sim, mister M., você  não existe. Sempre digo. Ou ouço.

Espero que entenda a aflição de estar longe. E a inconsequência de estar perto.

Um beijo,

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“O amor é a única paixão que não admite nem passado nem futuro.” – Honoré de Balzac

“Amar é a eterna inocência. Amar é não pensar.” – Fernando Pessoa

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Parar de reclamar.

Agradecer a existência dos e-mails. E das pessoas que ainda nos surpreendem. Agradecer cada palavra. Cada sentido. O formato, a estrutura, o jeito todo que se constrói.

E ler tudo de novo. Mais trilhões de vezes.

Porque não cansa. Nada cansa.

A vida se compõe desses fragmentos.

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Quero apagar tudo. Começar do zero e esquecer tudinho que aconteceu. Tudo de bom e de ruim. Porque tudo de bom veio sempre acompanhado do ruim. Logo, apagando o bom, apago o ruim. Não quero mais. Não quero mais ficar do lado do celular esperando ele vibrar, gritar, tocar uma música ou mandar sinal de fumaça. Não quero. Não quero mais fazer de um jeito e ser entendida de outro. Não quero mais tentar. Nem tentar. Nada. Porque quando eu tento, vira jogo, e quando jogo, vem a espera. A retribuição. Ou melhor, a resposta, a reação. Não é bem retribuição. Porque não faço pedindo de volta. Faço porque quero. Sinto vontade. Não quero mais tanta teoria pra defender. ‘Fazer tudo que eu tenho vontade.’ ‘Não pensar nas consequências.’ ‘Não sentir medo.’ ‘Ser.’ Não quero mais. Quero ser comum. Ser amada e não mais amar. Patético esse pedido. Quero amar também. Não quero mais mentir que não quero o que é óbvio que quero. Amar muito. Fazer tudo e explodir de felicidade. Só não quero a espera mesmo. O ouvido colado no celular. A conta absurda do celular. Não quero mais meu celular. Ele me acaba. Acaba sim. Não quero ouvir as músicas que me lembram de tudo só na introdução. E dão vontade de chorar. Ou ligar. Ele de novo. O celular. Quero ter controle sobre os segundos pra que eles não pareçam eternos quando tô angustiada. Quero que sejam eternos quando a felicidade não tiver nem nome nem explicação nem sentido. Quero sentir sem entender o sentido. Não quero me explicar mais. Só me enrolo. Porque eu mesma não entendo. Só sei. Não quero esperar mais o cara que vai sacudir a minha vida e calar a minha boca. Apagar todas as minhas teorias. Destruir todas as minhas certezas. Me olhar e sentir. Sentir com toda a força que o corpo é capaz. Deixar o relógio correr e nem dar bola pra ele. Porque simplesmente o tempo não conta. Ele faz tudo na hora que quer. De dia ou de noite. 4 da manhã mesmo. E daí? Se sentir vontade. A vontade pontua o relógio. E comanda. Porque assim é viver. Viver, entende? Emoção, entende? Sem cavalo branco. Sem dinheiro. Sem ter. Sem pedir. Sem explicar. Não quero mais esperar. Ele não existe. E parece papinho de menina de 15 anos. Ingênua. Boba. Que sonha mais do que fica acordada. Que acreditou no que sentiu e levou a sério. De menina que assusta pra fugir de si mesma.

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