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Archive for the ‘Historietas’ Category

Eu te digo

Eu te digo: a saudade é a vaidade da falta.

Você pensa que eu gosto de dramalhões.

Eu te digo: foi um escritor que postou isso no twitter.

Você me diz: e daí?

Eu te digo: casa comigo?

Você me diz: não.

Eu te digo: é, imagina o nosso filho com a sua cara e a minha imaginação?

Você me diz: o que você sonha antes de dormir?

Eu te digo: eu me vejo na frente da janela, olhando lá embaixo, procurando o seu carro, aí eu vejo você estacionando, vejo você tirando alguma coisa da parte de trás, vejo você andando, você puxa a calça com uma mão e segura um presente na outra, você caminha em direção à minha janela, você não olha pra cima, eu te olho lá de cima, vejo seu rosto, você puxa a calça, eu sorrio, você toca a campainha, eu demoro pra responder, você olha pros lados, eu atendo, você diz apenas ‘oi’, eu não digo nada, aperto o botão que abre o portão, você entra, eu abro a porta sem sorrir, você sorri, eu sorrio, você é tomado por impulso jamais imaginado, me agarra, me abraça, me beija, me pega no colo e nunca mais me deixa sentir o chão com os pés.

Você me diz: tudo isso?

Eu te digo: muito mais.

Você fica em silêncio. 

Eu te digo: muito mais, você diz que me ama.

Você sorri.

Eu te digo: nunca mais vai embora?

Você me diz: prometo.

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deve ter sido a primeira vez que vi o real. em velocidade acelerada e com narrativa confusa. depois clara. um monte de coisa em sequência. fazendo sentido. foi ruim de enxergar. quis sair correndo para não ver mais. apesar de querer muito ver. não tenho sabido explicar. sei que eu vi de outro jeito pela primeira vez. e eu juro que só queria sair correndo dali. tava arrependida de ter ido até lá. completamente arrependida. um dia estava numa festa no clube e, sentada num canto, eu olhava para porta, encarava um a um quem entrava pela porta. depois de trocentos rostos, ele entrou. meu coração quase saiu pela boca. eu sabia que tava numa enrascada e quis com toda força correr dali. subir as escadas todas e me esconder atrás da biblioteca das crianças. durante as tardes eu sentava lá me sentindo segura. muito longe do mundo. eu não corri. eu sabia que tava enrascada. então eu não olhei mais pra porta. eu fingi que não esperava ele chegar. eu segurei meu coração com os outros órgãos dentro do corpo. não sei como passou a noite, mas no final dela, no último instante, ele estava do meu lado, com uma mão na minha perna, sem querer, depois me abraçando, eu dando tchau, e ele pedindo pra eu ficar. eu fiquei. e nunca mais ele pediu.

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exercício. 4

Sobre as pausas

Ele me disse coisas horríveis pelo telefone. Entrei na casa da mamãe com a mochila nas costas e os pacotes nos braços. A mesma fisionomia cansada, a agitação das mãos, os olhos que nunca me encaram e ela me ajuda a colocar tudo sobre a mesa da cozinha. Aponta para o relógio e resmunga o atraso do papai. “Acho que ele foi fabricar o queijo ralado”. Sinto o cheiro de tomate refogando no alho e lembro do quanto papai sempre demorou no mercado. Ela segue falando sem pausas, reclama do vizinho que parou o carro de novo na frente da nossa garagem, abaixa o tom da voz para contar que ele chegou ontem com outra mulher diferente, a terceira mulherzinha da semana, fala se aproximando, corre para abaixar o fogo, avisa que o almoço foi improvisado, é o que tinha no armário, a situação continua difícil, a aposentadoria do seu pai não dá pra nada, me olha pela primeira vez nos olhos.

Tínhamos nos desentendido no café da manhã, liguei na hora do almoço e ele me destruiu pelo telefone. Disse que não me desejava mais, mãe. Que não conseguia ter vontade de me ver. Fiquei muda, não consegui reagir. Ele desligou, eu fiz a mala e saí o mais rápido que pude. Não posso olhar pra ele de novo.

O papai chega. Eles se olham e ele me abraça. A mamãe levanta rapidamente e encosta de novo no fogão. Parece brincar com as chamas, virando o botão para esquerda e direita como se tentasse chegar ao ponto ideal do fogo. Ela não me olha chorar. Eu não consigo narrar a ordem das coisas, falar tudo que ele me disse, me desculpar, pedir ajuda.

Coloquei gerânios no seu quarto, mamãe interrompe meu choro sem som. Sorrio. Que bom que você está aqui. Seu pai não consegue mais levar o Tobi para passear. Claro que eu consigo, ele diz desfazendo o abraço. Quase caio. Ele dá um assobio fraco e o Tobi entra correndo na cozinha. Me deixo cair ao lado dele. Sou abraçada pela segunda vez em menos de cinco minutos. Levanto como se nunca tivesse conhecido o chão, mal seco as lágrimas e caminho tentando acompanhar os trotes do Tobi. Ele era ainda tão pequeno quando fui embora.

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marco aurélio

todos são marco aurélio. eles vêm na minha direção, cruzam comigo pelas calçadas. estudamos juntos na sexta série. e nunca mais. nunca beijei marco aurélio. mas marco aurélio está em todos os rostos na rua. marco aurélio é nome bom pra ficção. tem sempre um marco aurélio nas novelas. marco aurélio é lembrança que reaparece no tempo real da trama. e a mocinha enche a boca pra dizer: marcoaurélio. é nome bom. nome bom pra memória antiga, dos tempos do colégio. no caminho de ida, pensou em sexo. eu vi pelo balãozinho pendurado na cabeça. sexo, saudade, sexo. não transava desde fevereiro. ou seria janeiro? fazia tempo. quando se pegava calculando o tempo, mudava de pensamento. empurrava o tesão repentino pro colo da pessoa ao lado. funcionava. um prato de macarrão ocupava o espaço por completo. a pessoa do lado se punha a suspirar. sexo bom é tão bom. ficava tentando calcular quantas vezes seria o ideal por dia. por dia? poderia. marco aurélio deve ter casado com alguma amiga de infância. alguém que estudamos também. deve ter três filhos. ou nenhum. marco aurélio não parecia fértil. marco aurélio deve ter virado piloto de helicóptero. com aqueles óculos escuros grandes. refletindo o sol. escondendo a vontade que marco aurélio tem de ser menos quieto. ser bonito. bonito como andré. todo andré é bonito e forte.

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exercício. 1

cabelos grisalhos e meias pretas,
eu costumo olhar as extremidades das pessoas.
não sei quantos anos tem,
ele se importa mais com isso
do que eu.
provavelmente é pai e gosta de contar histórias,
mas os filhos já cresceram.

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têm umas músicas que eu escuto e me acontece uma coisa:

o coração fica sem saber onde bater, o ar parece grande e fica crescendo de um jeito invisível e ainda assim palpável, como se eu pudesse dar um salto e encostar no teto sem perceber a força do impulso nos joelhos, uma vontade de gritar bem alto e lá do alto, de cima da torre mais alta, gritar e bagunçar o cabelo com as mãos e o vento, o ar enorme tirando tudo de pesado que eu guardo por tanto tempo e saindo forte pelo nariz num suspiro ao contrário, a dor de todas as articulações estalando e ficando leve, o sorriso sorrindo besta, como se fosse possível ser frágil sendo o mais forte que se é capaz.

nessas horas eu penso em você.

e aí a palavra capaz faz todo o sentido de estar no lugar onde está. não sou capaz de mais. não sou capaz de menos. às vezes me envergonho. nessas horas eu tenho orgulho. eu sairia correndo agora. minhas pernas alcançariam as estrelas. porque as estrelas são a parte romântica da história toda.

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um pedaço de tudo

agora ela fica olhando os passarinhos na calçada. é como se tivesse perdido um amigo no escuro do medo. olha os passarinhos, os ouve cutucando o asfalto como se fosse salgado. os dias passam sem que ela note as horas. ela caiu de cima da nuvem e agora o chão rejeita os novos passos. quando era mais nova via as meninas dos livros sozinhas em seus quartos, olhando pela janela. ela não abre mais a janela. quando era mais nova conheceu um menino que entrou nos seus olhos no dia em que se olharam deitados no parque. ele olhava lá no fundo e brincava com as cores. ela olhava ele lá dentro. ela não sabe guardar lembranças numa caixinha. ela fica olhando os passarinhos enquanto o menino voa sozinho. ele gosta de entrar debaixo da ducha pelando do chuveiro.

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