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Archive for abril \29\UTC 2011

exercício 2.

Entusiasmo é uma palavra tão distante. O garoto berrando nos braços da mãe, o cachorro esperando sem paciência do lado de fora, o marido não fazendo nada de braços cruzados. Pergunto: “Tem sacola de pano ou posso embalar nessas de plástico mesmo?”. Responde com um gesto rápido com as mãos indicando os de plástico. Molhar os dedos com saliva é um jeito prático de separar as sacolas sem que venham duas grudadas de uma só vez. Não é uma cuspida ou escarrada desnecessária. Basta uma pequena umedecida nos dedos indicador e polegar para que elas desgrudem e venham solitárias. Outro dia uma garota pequena de bunda grande pegou as sacolas da minha mão e sorriu mantendo nossas peles encostadas por cerca de sete segundos. Eu desviei os olhos na hora. Ela deve ter se distraído com algo na porta que fica bem atrás de mim e esqueceu os dedos encostados nos meus. Vergonha não é bobagem de garotas do interior. O Rafael que trabalha no estoque é tão tímido que mal consegue dormir nos dias anteriores ao que sabe que ficará do lado de fora repondo as estantes. Ele tem medo de estar no caminho de alguém quando esse alguém tem pressa de comprar molho de tomate, macarrão e queijo ralado para voltar o mais rápido possível para a namorada. O Rafael tem dezoito anos e nunca teve uma namorada. Namorar é uma sorte que vem com o tempo. As pessoas acabam achando alguém e no começo elas têm pressa de comprar o molho de tomate, o macarrão e o queijo ralado porque querem voltar logo pra casa. O gerente fez uma apresentação explicando que as sacolinhas de plástico podem acabar com a água do planeta. Elas não são feitas de água. Não sei bem a relação. Pergunto primeiro sobre as sacolas de pano. Acho que ninguém sabe a relação. Ninguém usa sacolas de pano. Algumas dizem que esqueceram em casa. Ninguém usa sacolas de pano. O bom de trabalhar no primeiro turno é que a volta de bicicleta é ainda na luz do dia. Tem dia que separo mais de mil sacolinhas de plástico e ainda é manhã lá fora. As horas passam mais devagar para quem tem pressa de ir embora mesmo que não tenha uma namorada.

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50 receitas

leoni, te amo.

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ela

seria como escrever como ela. como andar como ela. daquele jeito que pisa forte e fala sem cuidados porque sorri. escrever como se fala, olhando no olho da pessoa. e abaixando levemente a cabeça de vergonha boba depois do ponto final. ela vai falando com as palavras. falando porque sim. ele deve olhar pra ela e segurar a mão dela e abraçar ela e dizer baixinho pra ela: eu também. na minha idade ela devia ter as pernas mais bonitas da cidade. pernas grossas de botas pretas. ou descalça.

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a cama chegou.
juro, juro.

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exercício. 1

cabelos grisalhos e meias pretas,
eu costumo olhar as extremidades das pessoas.
não sei quantos anos tem,
ele se importa mais com isso
do que eu.
provavelmente é pai e gosta de contar histórias,
mas os filhos já cresceram.

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repleta de ansiedade. repara: vai ao banheiro e volta em segundos. não quer perder nada. é assim desde criança. repara: faz xixi, se limpa, lava a mão, enxuga, se olha no espelho, sorri, tem pressa, tem toda pressa, sorri no espelho, os cabelos bagunçados, o sorriso de lado, feito criança, com pressa, cheia de pressa, destranca a porta, está de volta. nunca vai passar. nunca vai ser outra coisa que não aquela correndo no espelho. e aquela com bolinhas dentro do estômago. aquela na frente do palco. ansiosa. cheia de ansiedade. lotada de ansiedade. explodindo de ansiedade. e aquela tentando lembrar dos detalhes. aquela chorona madalena arrependida. e aquela que não tem ideia do que diz o espelho. repara: um tamanho infinito.

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a um real

quinze pras quatro da manhã acordada. me pegaram no flagra. no facebook. ri sozinha pensando na ideia do flagra. um susto na calada da noite. olhei para os lados e procurei a câmera escondida. não tem mais isso. tinha sonhado com coisas pesadas. eu me flagrando no meio do sonho. é isso! bingo! ta aí! e a culpa comendo solta. meu pai foi no banheiro bem na hora. fiquei revendo cenas na parede. o lugar mais alto que eu já (es)tive. o caminho todo. a sensação de pular do alto da pedra. a quadra lá do vizinho. um portão enorme que eu precisava pular e não conseguia. eu não conseguia. a cena toda tão clara depois de acordada. ou lá no tempo que era. não tem confusão que seja suficiente. posso estar confusa. temo(s) isso.  posso não estar aqui. estando. vendo tudo. entendeu?

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