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Archive for novembro \27\UTC 2009

Uma vela e mais.

Eu não sei direito como se faz isso. Minha mãe foi viajar e me pediu para acender a vela que ela deixou no quarto em homenagem à minha tia. Hoje faz vinte anos que ela morreu. Minha mãe sempre sabe essas datas, ela acredita na vela, nos anjos, nos santos, ela tem uma fé que eu admiro. Então eu fui lá, peguei o isqueiro azul do lado do pires com a vela, olhei pra foto dela e acendi. Eu não sei direito como se faz. Pensei em conversar alguma coisa, ir falando, me concentrar na idéia de homenagem e fazer certinho o que a minha mãe faz. Mas é difícil. Olho pra foto e lembro da minha vó. Vejo a carinha dela e tento lembrar de alguma coisa que não me é possível já que eu tinha apenas quatro anos de vida, quase cinco. Penso também na besteira que foi o acidente. Ela tomando banho depois de um almoço com o marido, recém-casada, desmaiando, vomitando, engolindo o vomito pelo nariz, sufocando, entrando em coma. É assim a história que eu sei. Penso na minha vó de novo. Como deve ser triste perder um filho em qualquer circunstância. Acho que ela não tinha a idade que eu tenho hoje. Realmente triste. Tento falar alguma coisa depois de rezar um pai nosso e uma ave maria. Não consigo. Tenho problemas com a fala sem resposta. Tenho sérios problemas com a falta de resposta. Penso em algo que me deixa feliz. Aproveito para pedir ajuda. Dou uma piscadinha pra foto da minha tia, sorrio pra foto da minha vó, faço o sinal da cruz e deixo o quarto da minha mãe. A luz do fogo é muito bonita. Sempre gostei de ver essa luz que só o fogo tem. Quando eu era criança, botei fogo nas minhas bonecas. Queimei o papel de parede e as dezenas de bonecas que esperavam sentadinhas nas estantes. E fiquei parada, de pé, olhando. A porta fechada e o fogo crescendo. Minha prima me salvou e não deu tempo de pegar trauma, ainda acho bonita essa luz. O que eu lembro mesmo é do cheiro de borracha queimada e da minha família toda jogando água para apagar. Era dia de festa e o meu tio jogava cerveja. É disso que eu lembro. Da minha tia eu lembro do sorriso e da pinta que ela tem igual a minha, no rosto. Não sei se é do mesmo lado, mas é igualzinha. Meus dois tios morreram no mês de novembro. Minha vó odiava esse mês.

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a boa vida

antes da chuva toda desabar e o dia ficar cinza, eu me esbaldei numa piscina azulzinha debaixo de um céu tão azul quanto.

a gente continua apesar de tudo, é o que eu tenho pensado. histórias são acrescentadas, vidas são incorporadas, medos vão e vem, o amor parece que vai, mas de alguma forma acaba voltando também. é a única coisa que não me dá pavor no mundo: o amor que eu sinto. e é por aí que eu continuo. quando bebo eu posso mandar mensagens pelo celular porque a falta de resposta frustra só no dia seguinte. o segundo de carência e necessidade de comunicação é feliz. poder fazer o que se tem vontade é felicidade. é só desse jeito que eu sei ser.

debaixo da água a vida parece tranquila, as pernas se movimentam com firmeza, meu joelho direito esquece de doer, meus braços ganham força, não há transpiração, a parede me empurra sempre pra frente, o corpo fica mais bonito, a dor do ‘não’ se afoga sem nem tentar se debater. a vida realmente parece tranquila. ela parece caber todinha ali.

 

semana que vem é a vez do mar.

 

a idéia de um livro decente anda cada vez mais distante. certas coisas se afastaram de mim de uma forma que eu nunca imaginei. palavras decentes, histórias decentes, ouvidos decentes para receber. tudo muito longe, mas sem desespero. realmente certas coisas se afastam sem que dê tempo de notar. raramente acontece um olhar com carinho. é o título do post do Bortolotto e é o nome da música que ele citou. é o que deixa de acontecer, um olhar com carinho.

 

comecei o livro que eu queria tanto começar: Malu de Bicicleta, do Marcelo Rubens Paiva. ano que vem deve sair o filme. já não consigo ver os personagens sem encaixá-los no Marcelo Serrado e na Fernanda Freitas, que estão nas fotos já divulgadas no blog do Marcelo. comecei a ler enquanto tomava sol. eram realmente essas as férias que eu queria. e exatamente agora. algumas coisas perdem a hora de acontecer, outras não.

 

promete que um dia você me explica tudinho?

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18h47

meus ossos doem, preciso da rua.

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Sintomas

Construção

madeira, tijolo, cimento, martelo, água, braços fortes levantando prédios. um olhar convidando o outro. mãos dadas, beijo roubado no cinema, mensagem encaminhada no final do dia. o cabo que puxa o elevador, os buracos das tomadas, as cores das paredes, o número de lâmpadas. o abraço de mãos e braços que procuram tocar o máximo de pele possível.

 

Desabrigo

o frio no peito de quem espera deitado na cama. roupas sem corpo, televisão e rádio chiando, passar pelo mesmo lugar infinitas vezes sem olhar para cima. chuva torrencial carregando o mundo. água gelada afogando geladeira, computador, cds, chinelos, bolo de chocolate, porta retratos, sonhos. o coração apertado. a falta, a saudade, a dor. pernas caminhando ao lado de destroços. 

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você quer que eu pare com esse papo de amor?

Júlia de Carvalho Hansen

 

(baixe aqui. ou aqui.) (li em uma tacada)

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é de amor.

aquele é o jeito de olhar que eu imaginei ser possível. um jeito meigo ao mesmo tempo que forte e preciso. doce, certo. ele olhava pra ela e eu olhava pra ele. não enceno a novela que algum autor fudido escreveu para mim, mas eu posso ver o jeito que eles se olham e acreditar na possibilidade a que corremos risco. quando paro para pensar nisso tudo, acredito no sonho que eu desenhei quando ainda era menina. a esperança deve ser a última a morrer. apesar da obrigação de sobreviver, eu acho mesmo que a resistência é algo natural. porque a esperança não apenas deve ser a última a morrer, ela simplesmente morre por último. ou ainda: a esperança não morre. as coisas têm feito menos sentido e alcançado mais sensações.  talvez seja esse o principal sentido. eu posso me deitar, fechar os olhos, imaginar aquele olhar, ver o mesmo olhar, criar um rosto e sorrir para ele. ainda assim o rosto não está vivo, nem o do dono do olhar, nem o do dono do sorriso. porque não era para mim. ainda não foi. mas será. eu posso passar de carro pelo prédio, olhar uma das janelas, adivinhar o que está fazendo, abrir bem os olhos, procurar por um olhar e lembrar de um dos minutos de presença. ainda assim o olhar não será daquele. porque não era para mim. ainda não foi. mas será.

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Diálogo 57.

Ele, já velhinho, na penúltima cena:

– Eu costumava ter medo de ficar sozinho com você. Agora não posso ficar longe de você.

Eles se beijam e se abraçam, deitados num morro, no meio da estrada, de noite.

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Do filme que eu vi hoje – Iris.

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