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Archive for junho \30\UTC 2010

nesse hoje

ninguém vai me devolver o que eu deixei – por conta própria – pelo caminho. assumi completamente a conta e o risco quando eu quis daquele jeito. é o jeito que eu sei ser. o único jeito que eu sei ser. então eu penso no minuto seguinte que não vai me atropelar porque se quer lento e passageiro. a hora a seguir, o dia que vem depois de conseguir dormir. durante a madrugada eu fico mudando de lado na cama, cabeça pra cá, cabeça pra lá, a paz mora tão longe da minha cama que eu nem finjo procurar mais. porque durante o dia ela fica aqui, me abraçando, deixando o meu tronco no lugar, o pescoço certinho, deixando o nariz no lugar dele de caçador de ar. não tenho me sentido amedrontada e isso é bom. tenho pensado em planos, planos, eu, pensando em planos, coisas lá pra frente, sem a morte no meio do caminho, eu, pensando em planos, e quase, quase mesmo, quase acreditando neles. não faço a menor idéia do que é dar certo e isso não tem a menor importância. vou sentar no bar que eu gosto, beber a cerveja que eu gosto e rir ao lado de pessoas que existem. ou eu sento sozinha e eu então existo. o resto foram sonhos. os sonhos fazem doer a cabeça quando se anda por aí brincando de adaptação pra realidade. ontem um menino chorava incansavelmente no centro cultural são paulo. e eu apenas passava. hoje o telefone tocou e eu tive a chance de sonhar com algo fora do que eu me acostumei a sonhar nos últimos anos de vida. ou meses. quando eu tiver a chance, eu juro, eu juro que quando eu tiver a chance, vou pegar ela, aumentar o tempo máximo de segurar a chance, e vou sim, vou com todas as forças, me especializar em adaptação de sonhos, trocar as bolas, adaptarei sonhos, porque a realidade, essa sim, a realidade será melhor.

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Pode ser que como as estrelas
as coisas estejam separadas
por pequenos intervalos de tempo
pode ser que as nossas mãos
de um dia para o outro
deixem de caber
umas dentro das outras
pode ser que no caminho para o cinema
eu perca uma das minhas ideias
preferidas
e pode ser
que já na volta
eu me tenha resignado
alegremente
a essa perda
pode ser
que o meu reflexo sujo
no vidro da lanchonete
seja uma imagem de mim
mais exata
do que esta fotografia
mais exata do que a lembrança
que tem de mim
uma antiga colega de colégio
mais exata do que a ideia
que eu mesma
agora tenho de mim
e portanto pode ser
que a moça cansada
de olhos tristes
que trabalha na lanchonete
tenha de mim uma imagem
mais fiel
do que qualquer outra pessoa
pode ser que um gesto
um jeito de dobrar
os lábios
te devolva
subitamente
toda a infância
do mesmo modo que uma xícara
pode valer uma viagem
e uma cadeira
pode equivaler a uma cidade
mas um cachorro estirado ao sol não é o sol
e uma quarta-feira não pode ser o mesmo que
uma vida inteira
pode ser
meu querido
que esquecendo em sua cama
meu brinco esquerdo
eu te obrigue mais tarde
a pensar em mim
ao menos por um momento
ao recolher o pequeno círculo
de prata
cujo peso
o frio
você agora sente nas mãos
como se fosse
(mas ó tão inexato)
o meu amor.

Ana Martins Marques

(Ilustríssima – Domingo, 27 de junho de 2010 – Folha de S.P.)

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John Fante (contos)

(…)

“Se você deseja muito uma coisa, especialmente algo que não pode ter, chama-se a isso Tentação. Ele queria aquela luva, mas sabia que não podia tê-la e por isso deveria ter-se esquecido dela. Mas não.”

(…)

John FanteO vinho da Juventude (o caminho do inferno – pág. 142)

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um espaço que vai da ponta do meu pé ao teto não necessariamente acima da minha cabeça. é uma idéia que fica entre a vontade de ser possível um sonho impossível e o constrangimento da realidade feia, mole e sem charme algum. fico caminhando entre uma coisa e outra e não me equilibro em nada. talvez fosse esse o dever de casa: deitar a cabeça no travesseiro e estabelecer os passos em uma corda um pouco mais grossa que a linha quase invisível da autodestruição. vejo espelhos por todos os lados e a mão condenando cada gigantesco defeito. não é fácil cumprir promessas que antecipam a dor maior. quem é que antecipa a dor maior sendo capaz de impedi-la? eu que não. mas tem a falsa impressão de controle. dos olhos fixados em um ponto no fundo da sala enquanto um seminário acontece lá no colégio aos treze, quinze anos. são anos e anos e ontem à noite hoje de manhã daqui a pouco de madrugada. existir, continua existindo: bonito, gigante e mágico. são sempre três palavras: bonito, gigante e mágico. feia, mole e cinza. a lua, o medo e o amor. são sempre palavras escritas na pele do peito do pé. não vai chegar o dia e a hora da explosão sonhada em poucos metros quadrados de oxigênio. é um espaço que não existe existindo sem ter a menor condição de existir.

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hoje tem:

e é aniversário da helena hutz.

saco de ratos é: mário bortolotto, fábio brum, marcelo watanabe, fábio pagotto e rick vecchione.
café aurora é: rua treze de maio, 112.

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sobre existir

eu pensava enquanto olhava ela cantar: caralho, que mulher é essa. e então eu sorria e sentia o corpo vivendo e respirando sem a menor dificuldade.

eu pensava enquanto ouvia a voz dele ao fundo: você é enorme, do tamanho do mundo, obrigada. e então eu não sabia o que fazer com as mãos e os olhos e a sede que eu tinha de te engolir.

eu pensava enquanto andava sozinha até o ponto de ônibus: tá bom, a noite é feliz e cheia e eu ainda tenho poemas novos nas mãos e música no ouvido. e então eu deixava a memória recuperar os instantes.

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seu nome:

generosidade

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