Feeds:
Posts
Comentários

Archive for setembro \30\UTC 2010

sorrir docemente

sorrir docemente quando o que mais quero é chorar baixinho em algum canto protegido da cidade. não foi uma noite fácil. eu e os meus fracassos. quando acho que não vai doer como antes, dói ainda mais. é só um pedido bobo que eu faço todos os dias de olhos fechados. pessoas andando e falando e mexendo os braços. pessoas contando histórias. ouvidos e olhos gigantes. chorar baixinho e dormir. sonhar com fantasmas que me apontam o dedo e gargalham e me beijam com sarcasmo.

Anúncios

Read Full Post »

24 de setembro de 2010

começa a me dar uma ansiedade que fica circulando pelo corpo, de um lado pro outro, gritando no meu ouvido. uma vontade de sair dessa sala e correr pelas ruas e cansar até que a ansiedade se acalme e durma. não é uma coisa ou outra que eu espero que aconteça, são todas as coisas e vontades e esperas e barulhos que eu não sei organizar. sei apenas que chama-se ansiedade. não espero nada. mas espero um tudo. já to com aquela vontade maluca de gritar muito alto. como seu eu passasse a maior parte do tempo sufocando alguma coisa. e aí é noite e eu tomo cervejas e esqueço dos berros. me acalmo de um jeito que ninguém saberia dar nome. invariavelmente eu acabo dizendo, em algum segundo da madrugada, digo e sinto, assim: o mundo podia parar agora e ficar assim pra sempre. uma vez numa cama. outra vez encostada em um pilar no meio de um bar escuro, cheio e com música. outra ainda num gramado bem verde. podia ser dentro de um barco. uma casa vazia. sei lá, debaixo do chuveiro.

Read Full Post »

se apaixonar é se importar com morrer.

Read Full Post »

cílios enormes

você podia entrar agora
deixar a porta
os quilômetros
pra trás
entrar no meu quarto
levantar os olhos
morder a língua
se deixar levar
pelos meus sonhos
palavras
que não canso de sonhar
metade pra fora
outra metade presa
nos meus olhos
boca
cotovelos
você podia deitar aqui
ceder o peito
as mãos
se deixar trazer
pelas minhas idéias
planos inteiros
de fuga
de filme
que não canso de traçar
no escuro
metade pra fora
pendurados
numa página da internet
em papéis
outra metade dando as caras
no meio da conversa
em cima da mesa
perto das garrafas de cerveja
dentro do beijo
os olhos
cílios enormes

Read Full Post »

oitenta e quatro

hoje minha vó faria oitenta e quatro anos. dos setenta e nove aos oitenta ela esperou ansiosamente, feito criança que vai viajar com o colégio e já dorme com a roupa que vai sair de tanto que pensa na hora da viagem. ela esperou, chegou lá, ganhou a festa mais linda que eu já participei, viveu os oitenta anos completos e morreu doze dias depois. oitenta e um não guardava ansiedade nenhuma. no dia que ela morreu eu fui lá no hospital na hora do almoço, depois da faculdade, antes do trabalho. fui correndo porque ela tava na UTI e o horário era curto. ela segurou a minha mão e me pediu pra ficar invisível pra poder ficar ali com ela. estou mal acostumada, não sei mais ficar sozinha, ela me disse. minhas tias sorriram. eu sorri e senti o nó na garganta. sou a rainha dos nós na garganta, mas esse fazia realmente sentido. nós na garganta não precisam de sentido. a mão dela é daquelas macias. digo daquelas, mas não conheci nenhuma como aquelas.

já contei tantas vezes essa história.

Read Full Post »

pág. 54

catedral de pedras de dominó

E quando você me olhar nos olhos e disser que vai embora?
Como é que eu fico cortando tomates com lâminas enferrujadas me arriscando com louras vendo os mesmos filmes com Steve McQueen pescando coroas de açúcar num mar de escorpiões assassinos eu fico assim tubarão sem barbatana serial killer sem vítima vira-lata sangrando no deserto de Atacama baleia encalhada na savana tartaruga na highway leite azedo de ressaca logo cedo vodka na geladeira ausência de Deus sexta-feira vômito outra mulher vontade de voar lâmpada queimada passos na escada tudo o que eu chorar vai dar em nada não há nada que eu queira mais do que essa neve no solado do sapato meu grito de guerra sozinho na cozinha meus poemas como bolas de basquete que sempre batem no aro.
Tô cansado de arremessar do meio da quadra no último segundo.

do livro: um bom lugar pra morrer (mário bortolotto)

Read Full Post »

sou eu

ela me levou a bolsa e a alegria que me rodeou a noite inteira. no final, andava cabisbaixa, porque eu sei exatamente a hora que as coisas começam a desandar. não adianta chorar a noite inteira na sala sozinha. tudo sempre fode seu momento de felicidade. o que é a felicidade? é qualquer coisa que ande bem longe da minha janela, porta, boca. eu queria dizer: caralho, nunca me senti tão feliz. mas as respostas são sempre um freio que me diz: ei, acorda, a vida é menos. eu odeio sentir o que eu to sentindo agora. eu odeio chorar sozinha no meio da sala. é a condição que me deram. me deram é um jeito de pensar que a culpa não é minha. mesmo sabendo exatamente que a culpa é totalmente minha. de não segurar a bolsa direito. de achar que a noite é um mar de rosas. de acreditar cegamente no que eu acho que os meus olhos vêem. os meus olhos mentem. eles me iludem de um jeito bonito. só pra parecer que a vida é assim também, algo mágico que acontece entre um beijo carregado de sentimento e a hora de ir embora. sabe, quando eu era criança eu acho que acreditava em paz. algo como fazer o que eu acredito, dormir e acordar entre acontecimentos que justificassem a existência. eu achava que as pessoas fariam o que queriam, se pensassem, viu, eu gosto de você e nunca me senti tão feliz como nesse minuto, elas olhariam bem fundo e diriam isso com todas as letras. porque é simplesmente a realidade e a vontade de fazer sorrir também a outra pessoa com o sorriso que a gente guarda lá dentro. eu pensei que elas diriam, viu, eu tenho um pouco de medo do futuro, porque eu penso que essa sensação vai embora e talvez passe esse encanto que faz a gente sorrir loucamente com a simples presença do outro, mas mesmo assim, eu amo estar aqui e poderia ter um gênio da lâmpada e eu ainda estaria aqui. eu achei que as pessoas olhariam nos olhos das outras e se entregariam. eu pensei tudo isso. imaginei tanto acordada como dormindo. mas não é bem assim. eu olho nos olhos dele e tenho vontade de dizer: viu, você é a melhor coisa que me aconteceu nos últimos cem anos. mas eu não digo. baixo os olhos. tenho quase vergonha do que eu penso. mais vergonha ainda do que eu sinto. porque não é daquele jeito. é doído. é injusto. é uma menina me roubando no meio da madrugada. roubando a minha capacidade de acreditar em sonhos.

Read Full Post »

Older Posts »