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Archive for abril \30\UTC 2009

Passava a mão pela parede verde concentrada na cor e no buraquinho que a falta de prego deixava. Devagar, com os olhos concentrados num único ponto, uma mão deslizava acima da outra acariciando a parede, sentindo o batimento da casa abandonada por ele há três dias. Com as mãos quentes, sentia a falta de calor no piso, já agachada, entre o vazio do sofá, levado com ele, e o vazio da mesa de madeira quebrada ao meio na última bebedeira. Ele foi embora deixando poucas palavras de explicação. Um suspiro sequer foi ouvido daquele pulmão, boca, coração. As longas discussões de anos de convivência foram substituídas pelo ruído dos sapatos esfregando o chão e pelo grito do celular que avisava a espera dela, por ele, na mesma noite. Ele foi embora com ela. Ele não disse uma só palavra e a deixou com as palavras perdidas entre cérebro, garganta, coração.

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Não é nem perto de onde eu gostaria de estar
Não é nem perto do que eu gostaria de ser
É longe pra caralho da sensação feliz de um beijo esperado a noite toda
É longe pra caralho das estrelas branquinhas pintando o céu negro sobre as nossas cabeças
Sou quase nada
sou

em
um
uma
única

São pequenas esperanças sendo destruídas
Construídas ao longo de uma meninice crescida amparada pelas palavras
Pequenas construções de sílabas que enchem a boca, o nariz e os ouvidos sensíveis
Sua boca falando surpresas no meu ouvido
Suas poucas palavras fazendo cócegas na minha pele
Sua mão ajeitando meu queixo na mira do calor quente de líquidos, cheiros e canções

*Hoje mesmo. Dia vinte e nove de abril. De volta.

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Quando leio o blog do Marcelo me vem aquela vontade doida de fazer, fazer e fazer. Fazer até explodir. Fazer até o último nó do peito desfarelar. Ao mesmo tempo me vem a inutilidade de mim mesma. Uma insegurança que me come por inteiro. Não sou capaz. Nunca conseguirei. E é o que eu penso. E é o que me movimenta. O que deixa de me movimentar. Olho pro computador comprado em doze parcelas e não consigo me animar de novo quando chego em casa. Se foi pra isso que me endividei: escrever, escrever e escrever. E não vem. Não faço nada. Tudo se perde no ar antes mesmo de virar texto, contexto, sentido. Tenho medo de nunca conseguir. Me dá certo desespero e felicidade lembrar do Bortolotto falando de seus trabalhos num encontro outro dia. Ele falava da despretensão em fazer o que se ama e por isso não esperar mais do que bons amigos se interessando pelos textos. É linda a idéia de literatura, ou arte de um modo geral, nascendo livremente sem expectativas. Deixar as palavras nos dominarem e na medida do possível dar um sentido à elas. Dar um sentido à vida, mais precisamente.

*em vinte e oito de abril.

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Não é fácil viver entre o que se pretende e o que de fato acontece. Na sexta eu fui de novo ao inferno das impossibilidades e voltei com a vida por um fio. A vida pretendida e não a vivida de fato. Porque a respiração continua a mesma. Seguindo a ordem. Ele não tem idéia do que acontece dentro de mim quando penso nele. Ele não faz a menor idéia do que é sentir o que eu sinto por ele.

Enquanto tocavam as músicas no show, eu pensava em tudo que em apenas um verso de canção eu gostaria de compartilhar com ele. Dizer que eu sinto falta daquele sorriso e da simples presença durante as manhãs de possíveis encontros no elevador. Saber que ele está por perto é quase tão satisfatório quanto encostar a minha pele na pele dele. Eu queria mesmo que ele estivesse comigo durante as viagens. Queria que conhecesse essas pessoas todas que me vêem falando dele.

“Será que é difícil entender / por que eu ainda insisto em nós (…) vem andar comigo”

E eu quase chorei de novo. Lá no show. Lá no meio de toda gente. Lá perto do céu que eu queria tanto que ele visse.

*em vinte e sete de abril.

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Vinte e três de abril.

De volta à vida real: os olhos sem ninguém pra procurar, o coração parando de acelerar, o frio e vazio e monotonia dos dias como quaisquer outros.

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sem respirar ela encostou o rosto no dele
os narizes se acariciando
a pele queimando cada fresta de impossibilidade
com as mãos ela apertava o joelho dele
com os dedos dobrados passava o calor da respiração
sem respirar ela pensava que com a força das mãos ele entenderia
apertava-lhe os joelhos
esbarrava o cotovelo na coxa
e acreditava cegamente na possibilidade de
de olhos fechados
de boca aberta
de corpo entregue
completamente
ser completa

*em vinte e três de abril.

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De olhos fechados.

O sonho tem me acolhido de alguma forma. Essa noite ele apareceu no alto da escada da arquibancada. Um amigo dele me fazia carinho e me seduzia. Eu sentia o corpo esquentar e olhava pra trás procurando por ele. Por uns segundos vi o rosto dele perfeitamente. O nariz com a pontinha redonda, o piercing, os olhos super pretos, a sobrancelha cheia de pêlos disformes, o sorriso que fecha os olhos, os pêlos perto do queixo. Ele não sorria, mas cobria a boca com a mão conforme falava com o alguém ao lado. Sempre do mesmo jeito. Ansioso. Teimoso. Eu o vi. Por segundos. Já não o vejo desde fevereiro. E nem em fotos. Foi bom sonhar. Mas ele nem me olhava. Com a indiferença que eu finjo ser imaginada e dramatizada. A verdade é que ele nem sabe que eu estou ali quase caindo no papo de mais um. Deixando seduzir. De alguma forma os sonhos me acolhem. “É uma vida paralela”, penso quando acordo. Gosto de rever o rosto dele. Ainda gosto.

*em dezessete de abril.

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