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Archive for the ‘Literatura’ Category

Exercício. 3

Antes de cair na água, Felipe comparou o nadar ao amar. Eu nunca tinha pensado nisso. O professor apita e entro também. Na piscina eu tenho que bater o braço, dar a volta lá em cima da cabeça, bater as pernas, respirar virando o corpo, puxar a água quando o braço estiver embaixo, cinco segundos, manter o corpo esticado o mais acima da água possível, olhar para baixo, seguir a linha do chão, fazer bolhas com o nariz, dois segundos. O professor apita e começamos outra sequência. Outros três tipos de nado, quatro piscinas, e dezenas de exercícios, sessenta minutos. Quando penso no que estou fazendo, erro. Quando penso nos movimentos todos, erro. É o que sempre me acontece quando penso no que estou fazendo no momento em que estou fazendo: erro. O automático, instintivo, intuitivo, me parece mais seguro. Nadando eu penso nele. Outro apito. Agora estamos de costas. Não tem mais a linha do chão, olho os reflexos do céu no teto de vidro enquanto vejo meus braços passarem rapidamente pelo meu campo de visão, primeiro o direito, depois o esquerdo. Quando comecei a nadar eu via o rosto dele do outro lado da piscina. A última vez que nos vimos ele disse que não gostava mais de mim. Uma semana depois eu descobria a piscina. É como se toda vez que eu ficasse sem ar, no meio da piscina, eu tivesse ele do outro lado. Ele foi embora, pegou o computador, as roupas, alguns livros e nunca mais voltou. Sem cena de filme, recaídas ou arrependimentos, me deu um beijo na testa e se foi. No primeiro dia, anotei lembranças no bloquinho que carrego na bolsa.  De manhã, de tarde, de noite. Palavras repetidas, sonhos, desejos, saudade. A falta de alguém é feito um buraco que vão cavando aos poucos dentro da gente. Sempre tem mais terra pra ser tirada. No segundo dia, passei a anotar diálogos que tivemos durante os dois anos e alguns meses de convivência. No terceiro e quarto dias, resolvi registrar os conselhos que ouvia por aí. “apague o número dele do celular”, “queime as fotos dos porta-retratos”, “corte o cabelo, mude o visual”. No quinto dia, misturei cerveja com vinho e vomitei toda a dor na privada do bar. Acordei curada e fui dormir no sexto dia com os olhos inchados de tanto chorar. Não tinha cura. No sétimo dia, comecei a natação. As lembranças dos dois anos e alguns meses de convivência ficam passando na minha frente no fundo da piscina. Revejo cada detalhe enquanto os braços estapeiam e as pernas dão pontapés na água. O Felipe diz que eu fico linda de toca e desembesta a falar sobre os músculos que cada exercício trabalha. Ele diz que o amor requer essa força de braços e pernas que acabam se adequando à água. E que quando dá certo, enquanto dá certo, a sensação é a mesma de quando respiramos no meio da piscina e vemos o outro lado lá longe sabendo que vamos chegar lá, sentir o alívio, e começar tudo de novo.

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então eu fui feliz de verdade. um mês, pouco mais, dois meses, pouco menos. não sabia o que era ser feliz desse jeito, não sabia que era possível, nunca soube. mesmo assim eu fui. e posso encher a boca pra dizer que foi a melhor coisa que me aconteceu nos últimos cem anos. cem mil anos. que tinha fim, eu sabia bem. se tem uma coisa que eu sei bem é que basta você sorrir loucamente pra maré virar completamente e o travesseiro sobrar quentinho em cima da cama como única alternativa. eu não queria. queria poder sonhar ainda com a felicidade acontecendo fora do sonho. entende? um sonho parecendo sonho, com todos os aspectos de sonho – o frio na barriga, o poder de vôo, a facilidade em chegar entre pontos aparentemente distantes, viajar e nem perceber que se entrou num ônibus, não se dar conta dos dias, das horas, do dinheiro que tem na conta, o coração palpitando e a sensação de um salto enorme com braços esperando para o pouso seguro – sendo realidade. nem parece que eu dormi durante esse tempo. é como se eu tivesse ficado o tempo todo com os olhos arregalados para não perder nada. mas aí veio o fim. e o perder de uma vez. os olhos duros e a realidade apontando o dedo na minha cara: pronto, brincou de ser feliz, viu como é? meus parabéns! agora coloca aí os pés no chão que o resto não tem nada a ver com isso. o dedo bem na minha fuça. e eu caí. o corpo todo estatelado no chão. tinha um grupo lá, de mãos dadas, eu agradeço, eu agradeço, eu agradeço, eles repetiam. eu peço, eu peço, eu peço, eu pensava. e fazia um pedido. ele sorria e eu sorria. e era quase melhor do que o tal antes.

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Mario Vargas Llosa

ele ganhou o prêmio nobel hoje. é um dos caras que tenho na listinha de livros para ler. enquanto não chego lá, viajei pelas indicações do twitter. abaixo um trechinho pescado de uma boa entrevista, feita por Emilio Fraia:

 

Gostaria que comentasse uma passagem do texto que escreveu para a série de livros organizada por Franco Moretti sobre o romance, quando diz que “o mundo sem romances teria como traço principal o conformismo”.
Creio que o romance foi sempre um testemunho rebelde, de insubmissão. Em todas as épocas, os romances flagraram nossas carências, tudo aquilo que a realidade não nos pode dar e que de alguma maneira desejamos. Começamos a inventar porque o mundo não nos parece suficiente. O romance se situa justamente nesta compensação que o ser humano busca quando entende que a realidade não o satisfaz completamente. Por esse motivo, o romance causou sempre desconfiança nos governos, nas instituições que aspiram controlar a vida. As religiões e os regimes autoritários nunca foram simpáticos ao romance. E penso que têm razão: o romance é mesmo um gênero perigoso, porque provoca a imaginação, os desejos, e nos faz sentir que a vida não é o bastante, que ela não consegue aplacar todos os nossos apetites e sonhos. O romance tem a ver com esse espírito rebelde. A invenção de outro mundo, de outra realidade, onde podemos nos refugiar e viver. Escapar através da fantasia. Acredito que essa é a origem de toda ficção.

(…)

Falando em África, gostei muito da sua coleção de hipopótamos.
Tudo começou quando uma peça que escrevi, Kathie e o hipopótamo, estreou na Inglaterra e os atores me presentearam com miniaturas do bicho. Tenho muito carinho por esse bicho, é um animal dócil, tem o paladar delicado e uma incrível propensão ao amor. Suas principais ocupações são tomar banho, chafurdar na lama e fazer amor – eles podem passar mais de 12 horas copulando. São feios, dão impressão de brutalidade, mas são delicados. Conseguiram o que os hippies jamais conseguiram, levar a cabo a máxima “paz e amor”. Gostaria de fazer amor como os hipopótamos.

 

a entrevista completa aqui.

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Minha ambição é consumida pela preguiça.

(sobre a preguiça, que eu citei em algum post nessa semana. a frase tá lá riscada no factotum, no meu quarto)

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Bagana na chuva

Freou o motorista e o meu guarda-chuva caiu no chão. Precisou o barulho, a quebra da velocidade e a queda de um objeto pra eu me dar conta de que estava num ônibus voltando pra casa. Acontece muito isso de eu não me dar conta de onde estou, o que estou fazendo ou pretendendo. As coisas pelo caminho vão me chacoalhando. Eu tava lendo o prefácio do livro que ganhei ontem à noite (segunda-feira) quando a sacudida de vida real me atropelou. Estou tão ansiosa para o livro que não consigo começar, vou comendo pelas beiradas, primeiro as orelhas, agora o prefácio, acho que não quero começar porque não quero acabar. Ansiedade é isso também. O livro é o Bagana na chuva, do Mário Bortolotto e o tal prefácio, que acabo de devorar, é do Reinaldo Moraes. Engraçado que só o prefácio já me despertou aquela fome que a arte, ou sei lá que nome tem, é capaz de despertar. Reinaldo escreve fácil. Eu já tinha pensado isso quando li o seu Pornopopéia, no ano passado. É como se o texto já existisse antes mesmo dele escrever. Sabe aquelas cantoras que cantam como se estivessem conversando um papo qualquer com uma pessoa qualquer numa mesa qualquer? É tipo isso o Reinaldo escrevendo. Como se fosse fácil. Eu liquidava o prefácio quando o motorista freou e derrubou o meu guarda-chuva, que descansava, ainda molhado, pendurado no banco da frente. Sem mais orelhas, contracapa e prefácio, começava o livro. Ansiosa por começar, não comecei. Era o ponto próximo o que eu tinha que descer. Com fome nos dois sentidos, fechei o livro, dei sinal, abri o guarda-chuva e pisei de volta no planeta, fazendo o que me é comum, que é adiar algo que eu acredito bom. Adiar sabendo que vou ter a tal coisa, claro, adiar quando já me é garantido o prazer. Tipo comer pelas beiradas e guardar o melhor pedaço pro final; tipo ouvir um cd aleatoriamente sem clicar na música favorita só pra ver quando é que ela toca naturalmente.

(eram 3h33 quando acordei pra escrever isso aí em cima)

Antes disso eu sonhava com uma piscina azul, azul, bem limpinha, lá na casa que eu passei a adolescência, em Bragança. Eu conversava com a mãe de uma amiga minha no celular, porque ela ajudava a gente a resolver o problema dos paraguaios que tentavam vir pro Brasil, mas eram impedidos por um dentista que pedia propina. (??) E eu tomava um café da manhã ótimo enquanto falava no telefone, antes de entrar na piscina. Pão fresquinho, requeijão, torrada e aquele queijo branco que eu gosto. Antes ainda os meus tios conversavam sobre a compra de um par de havaianas parcelado em 20 vezes. (??)

(desliguei o computador e tentei voltar a dormir. não consegui. fui ao banheiro, peguei um pedaço de chocolate – na geladeira, depois do banheiro, claro -, acendi a luminária e peguei o Bagana pra ler. cinco e meia da manhã e eu fechava o livro, devorado por completo. gosto quando é de uma vez assim. queria copiar o prefácio do Reinaldo pra assinar embaixo o que eu também senti com o livro. mas é coisa demais. e eu sou daquelas que vai digerindo as coisas aos poucos, provavelmente o livro vá acontecendo entre outras palavras por aqui.) 

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Pode ser que como as estrelas
as coisas estejam separadas
por pequenos intervalos de tempo
pode ser que as nossas mãos
de um dia para o outro
deixem de caber
umas dentro das outras
pode ser que no caminho para o cinema
eu perca uma das minhas ideias
preferidas
e pode ser
que já na volta
eu me tenha resignado
alegremente
a essa perda
pode ser
que o meu reflexo sujo
no vidro da lanchonete
seja uma imagem de mim
mais exata
do que esta fotografia
mais exata do que a lembrança
que tem de mim
uma antiga colega de colégio
mais exata do que a ideia
que eu mesma
agora tenho de mim
e portanto pode ser
que a moça cansada
de olhos tristes
que trabalha na lanchonete
tenha de mim uma imagem
mais fiel
do que qualquer outra pessoa
pode ser que um gesto
um jeito de dobrar
os lábios
te devolva
subitamente
toda a infância
do mesmo modo que uma xícara
pode valer uma viagem
e uma cadeira
pode equivaler a uma cidade
mas um cachorro estirado ao sol não é o sol
e uma quarta-feira não pode ser o mesmo que
uma vida inteira
pode ser
meu querido
que esquecendo em sua cama
meu brinco esquerdo
eu te obrigue mais tarde
a pensar em mim
ao menos por um momento
ao recolher o pequeno círculo
de prata
cujo peso
o frio
você agora sente nas mãos
como se fosse
(mas ó tão inexato)
o meu amor.

Ana Martins Marques

(Ilustríssima – Domingo, 27 de junho de 2010 – Folha de S.P.)

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John Fante (contos)

(…)

“Se você deseja muito uma coisa, especialmente algo que não pode ter, chama-se a isso Tentação. Ele queria aquela luva, mas sabia que não podia tê-la e por isso deveria ter-se esquecido dela. Mas não.”

(…)

John FanteO vinho da Juventude (o caminho do inferno – pág. 142)

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