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Archive for janeiro \31\UTC 2010

sozinha.

eu durmo melhor de dia do que de noite. com a janela aberta e a luz tomando o quarto.

de dia, eu durmo.

 

você pede uma coisa só. a coisa não acontece. todos os não pedidos aparecem saltitantes. é só uma coisa que eu quero. é a única coisa que não acontece. insisto. continuo pedindo pros números repetidos no relógio, pro sol, pra lua, pras estrelas, pros anjos, pro meu dramaturgo vocalista.

 

a distância e o silêncio vão deixando um buraco tão tão tão grande. e dói tanto tanto tanto, eu disse.

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os papéis

Ela se surpreendeu de que também ele tivesse notado o que ela via de si mesma no espelho.

– Meu mistério é simples: eu não sei como estar viva.

– É que você só sabe, ou só sabia, estar viva através da dor.

– É.

– E não sabe como estar viva através do prazer?

– Quase que já. Era isso o que eu queria te dizer.

Houve uma pausa longa entre os dois. Quem parecia emocionado agora era Ulisses. Chamou o garçom, pediu mais uma dose. Depois que o garçom se afastou ele disse num tom de voz como se tivesse mudado de assunto e no entanto o assunto era o mesmo:

– Pois eu tive que pagar a minha dívida de alegria a um mundo que tantas vezes me foi hostil.

– Viver, disse ela naquele diálogo incongruente em que pareciam se entender, viver é tão fora do comum que eu só vivo porque nasci. Eu sei que qualquer pessoa diria o mesmo, mas o fato é que sou eu quem está dizendo.

– Você ainda não se habituou a viver? perguntou Ulisses com intensa curiosidade.

– Não.

– Então é perfeito. Você é a verdadeira mulher para mim. Porque na minha aprendizagem falta alguém que me diga o óbvio com um ar tão extraordinário. O óbvio, Lóri, é a verdade mais difícil de enxergar – e para não tornar grave a conversa acrescentou sorrindo – já Sherlock Holmes sabia disso.

– Mas é triste só enxergar o óbvio como eu e achá-lo estranho. É tão estranho. De repente é como se eu abrisse minha mão fechada e dentro descobrisse uma pedra: um diamante irregular em estado bruto. Oh Deus, eu já nem sei mais o que estou dizendo.

(Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres – Clarice Lispector)

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saiu pra trabalhar e o encontrou na esquina da barraca de carne louca com a loja de calçados. entrou no prédio e o encontrou no elevador. caminhou pela paulista e o encontrou perto da livraria. olhou para o celular e flagrou o tremor em compasso com o do peito: a despedida do apartamento que você pediu, já, te espero. deitou na cama e sonhou com as mãos acariciando umas as outras. ligou o rádio e pegou o refrão: me peguei sonhando com sua voz ao pé do ouvido, e te liguei. fechou os olhos e ouviu o toque do celular se misturar com a música. o nome piscou, o coração sorriu, as palavras tortas compactuaram com o não-sentido-não-controle-feliz. pensou em morrer, escolheu amar. escolheu parar, ganhou carinho. deitou a cabeça no colo vazio, encaixou a cabeça no colo feito sob medida, deitou silêncio, falou ouvidos, sorriu de olhos abertos, entrelaçou dedos, misturou esperas, sorriu estrelas, sonhou mentiras, viveu possibilidades, viveu amor,

viveu.

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menos.

o degrau pode ser pequeno. é só subir para se dar conta que o lugar possível é bem abaixo.

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com o ar

respira comigo bem devagarinho? puxa o ar, não pensa no que você tá fazendo, só por agora, vai. agora solta. puxa de novo. solta. agora faz bem rápido, com força. sente o coração acelerando. solta, puxa, solta, puxa, solta. abre bem a boca pra sair com tudo. fica com os olhos bem abertos. viu como é sentir sem saber explicar?

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Um jogador de futebol que pendura as chuteiras no auge de sua carreira, porque sabe que não será capaz de conquistar um campeonato como aquele novamente. Um jogador de futebol que bota a bola embaixo do braço, recolhe meias, chuteira, calção e camiseta, olha o estádio em volta, sente o coração acelerar compartilhando a euforia da torcida, vê a lágrima se pendurando nos olhos, respira fundo, levanta a taça e grita desesperadamente. Um jogador de futebol que entra no vestiário ainda com o som da torcida ecoando na cabeça e pensa que ainda pode continuar. Um jogador de futebol que acorda no dia seguinte a primeira derrota, no novo campeonato, depois de ter resolvido continuar, e lembra da torcida, a mesma torcida, agora silenciosa, nem aplaudindo, nem vaiando, silenciosa, como se dissesse: esse cara já fez o que podia, não serve mais. Um jogador de futebol que não se deu conta que um dia não é eterno, uma vitória não é eterna, um dia como aquele não tem continuidade. Um jogador de futebol que ouve torcedores no aeroporto, após a primeira derrota no novo campeonato: velho cuzão.  

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daqui.

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