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Archive for janeiro \29\UTC 2008

Cheiro de casa

Chega em casa e sente o cheiro já no elevador. “Arroz, batata frita, salada de tomate, alface, palmito e champignon, brócolis e o molhinho do papai”, adivinha abrindo a porta. O dia foi horrível, está encharcada da pontinha do dedinho mindinho do pé até a última raiz já crescida no tom errado na cabeça. Odeia São Paulo com essa chuva. Odeia guarda chuva. Odeia o cheiro fedido do ônibus. Abre a porta e respira fundo pra lembrar de novo que chegou, que não tem mais chuva, que o cheiro é de alho refogado com cebola, do arroz e do molhinho, misturados. O segredo é o molho inglês e o tomate bem cortadinho. E o amor, claro, o velho slogan da sazón. Suspira. Não sabe explicar como a comida se torna comida. Assim, comível, degustável. Adora comer. Adora essa comida. Comida de mãe não tem explicação. Esquece de tentar explicar.

Em casa. Enfim.

Beija a mãe, rouba uma batata, ri, ouve a tevê, o teclado do computador no quarto, um celular tocando, e até esquece de xingar o trânsito. Esquece de falar do dia que passou. Esquece até que a calça tá pingando, o tênis tá pesado e a meia tá fedida. Pega a toalha em cima da máquina de secar. Esse lugar a mãe que escolheu. Ela já vai por instinto. Todos da casa sabem. Mãe sabe exatamente onde colocar as coisas.

Beija o pai, fala qualquer coisa com o resto da casa, vê a propaganda do Big Brother, dá um palpite, discorda do irmão, da irmã e da outra irmã. Enrola a toalha no pescoço e senta um pouco no sofá. A irmã mais nova ameaça entrar no melhor chuveiro se ela não for logo. Birra de irmã é de nascença. Sempre igual. E as duas correm pro banheiro. Ela chega antes e tranca a porta. As duas riem.

Tira a roupa correndo. A água quente já embaça o espelho. Entra num salto. Deixa a água correr e bater com força. Fecha os olhos e lembra como era simples morar com eles. Como era feliz. “Água quente esquenta mais que cobertor”. Sai do chuveiro, coloca o pijama e ainda com a toalha na cabeça pega a panela do miojo. O mesmo sabor de ontem. Tomate. Está faminta. Abre a geladeira e vê a pizza de frigideira. Aquela comprada semana passada. Procura molho de tomate, queijo e tomate. Nem acredita quando junta todos os ingredientes em cima da pia. Viver sem mãe é quase não viver. “Engraçado como podia sentir o cheiro do alho. Se não for do vizinho, minha memória tem mais olfato que eu”, pensa rindo baixinho.

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Clichê

Eu queria ser rica pra poder comprar um livro por dia.

Preciso.

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…tava demorando.

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em tempo real

meia noite e vinte e três, 

descobrindo-

me.

auto

(Diário de uma paixão. Assisti agora. Lindo! Sem palavras. Ou muitas. Ryan Gosling.)

– eu quero. assim.

vivendo. re-vivendo. lembrando. entendendo. não mais sentindo. lembrando. entendendo. alguma lição sempre tem. ou eu que tento tirar. aprender. vendo. assistindo. não era, não sou, não fui. é dele. era/será. não fui parte. nunca. vergonha. baixar a cabeça. desviar. baixar a cabeça. sem sono. sem vontades. nada. nem pensando. mas ainda assim: entendendo. entendendo. se apagou. não foi nada. já faz tempo. um dia eu tinha que ver. e aprender. entender. ufa! ufa? ufa.

meia noite e vinte e seis.

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21 horas e 30 minutosTereza Yamashita

Mãe, fala “boa noite, Grace”.

Boa noite, Grace.

Boa noite.

Sempre que sinto medo minha mãe me recita uma poesia.

Hoje estou com muito medo. Acabo de perder um amigo.

Estamos no hospital, estou com leucemia. Aqui todos têm câncer.

Minha mãe disse que viemos só para uma consulta de rotina, coisa boba, e acabei sendo internada. Meu nariz estava sangrando.

Tenho nove anos e um irmão de cinco. Ele é muito traquina. Hoje ele pegou o triciclo e percorreu toda a ala pediátrica. Atropelou enfermeiros, pacientes e arrancou olhares curiosos de todos.

Meninos sempre são mais levados que as meninas, eu acho.

A minha médica é superlegal e carinhosa. Ela tem uma pulseira linda, com um coração e  muitos pingentes, ela diz que ganhou de um velho amigo. Acho que foi do seu ex-marido, ela estava triste.

Estou sentindo muitos calafrios e estou chamando o Hugo a toda  hora. As crianças dizem assim, aqui, quando vomitam muito, é divertida a expressão. É a quimioterapia. Vou ficar careca. Eu sei onde comprar uma peruca.

A doutora diz que sou muito corajosa.

Minha mãe foi levar o meu irmão pra ficar alguns dias com a minha tia, em outra cidade, ele está muito gripado.

Ela sempre se despede de mim com um selinho. Te amo mãe!

Meu nariz está sangrando, chamei o Hugo outra vez, e outra, e outra.

Uma hora e meia de choques e mais choques. O meu coração parou, a médica inconformada foi obrigada a marcar o horário do meu óbito.

Mãe, você recita lindamente as poesias, mesmo de longe, escutei sua voz e o medo passou.

Mãe, fala “Boa noite, Grace”.

Boa noite, Grace.

Boa noite.

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Tudobem

ando me sentindo como a garota da propaganda que parece a Amélie Poulain. a garota do Tudobem. sempre Tudobem.

Juliana, sua conta está zerada e você não tem dinheiro nem pro ônibus de amanhã. Tudobem. Juliana, você trabalhou duro nesse texto. ficou do jeitinho que você queria. agora eles vêm e mudam tudo. editor é pra isso. Tudobem. Juliana, você pediu na virada de 2006 para 2007 para conseguir escrever seu livro. um romance lindo. cheio de amor. e conseguiu. até acreditou nele. agora, em 2008, você descobre que as pessoas além de escreverem um romance precisam contratar um agente literário para que as represente. você é assessora de imprensa, Juliana. sabe muito bem representar a si mesma, fazer release, divulgar, ser política e mega simpática. mas, não, você precisa de um agente literário. Tudobem. Juliana, você quer entrevistar todas essas ídolas que escrevem mais do que bem, mexem com o teu sentimento e ainda conseguem publicar livros. mas elas não respondem os seus e-mails. Juliana, você escreve como quer, se expressa e diz o que sente. isso assusta os homens. se não mudar vai acabar sozinha, abraçada ao travesseiro. Tudobem. Tudobem. Tudobem. Tudobem.

Tudobem o caralho. não quero ser a moça do carro. da propaganda. por que eu não consigo nem berrar?

isso:

“Ela estava prestes a se sentir a culpada daquilo tudo. Pois há, nela, uma culpa sem sentido. Uma “culpa kafkiana”, que embaralha os fatos de tal forma em sua mente que no fim, se disserem que Ana é a única culpada, ela aceita. É o mandato de prisão de O Processo. Se ela de repente receber um mandato de prisão, é capaz de nem sequer perguntar o motivo e estender os braços às algemas.” (Fernanda Young. Vergonha dos pés.)

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explodindo

não consigo. não consigo. não consigo. não consigo. não consigo. não consigo. não consigo. não consigo. não consigo. não consigo. não consigo. não consigo. não consigo. não consigo.

 (escrevi todas as vezes. sem copiar e colar. pra ver ser serve de terapia. preciso de terapia. vou explodir. e agora misturou com sensações boas. e isso me preocupa mais do que as tristezas. e o vazio. porque me enche rapidinho. e parece que vai explodir. a sensação é assim: vou descobrindo coisas novas. minha mente se ocupa por completo. só penso naquilo que acabo de descobrir. me empolgo. quero fazer, descobrir, ir até lá, escrever, perguntar, aprender. agora. já. vai me dando um siricutico. a vontade é de gritar, correr, sair daqui, levantar, rir, gargalhar. acelerar as horas. aí eu lembro das dificuldades. e dos outros sonhos que eu destruí e que voltam quando essa sensação aparece. é uma luz lá no fundo. a esperança. lembro da merda da esperança. odeio a esperança. odeio. a merda da esperança. a idéia de que eu posso sim. mas quando? odeio o quando. o como. lá longe. tudo lá longe. quero me afundar de novo na cadeira. ou deitar na cama. e só dormir. sem sonhar. sem esperar. sem ler mais ninguém que me lembre de mim. e dos meus fracassos. dos meus podia. mas não deu. não quero mais lembrar de mim, entende? quero os outros. sugar até não poder mais. até esquecer que eu sugo pra me achar. achar o que? pertencer. )

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