você pensa que as coisas são pra sempre. ou melhor, você pensa que as pessoas são pra sempre. não são. nem todos sentem esse medo terrível que você sente de deletar uma pessoa da sua vida. sabe, não mais saber o que ela anda fazendo, pensando, sentindo, comendo? nem todos entendem desse jeito. as pessoas simplesmente passam, assim elas pensam. e os momentos não precisam ficar rodando na cabeça implorando por repeteco. “e o que que ela quer? ela quer um repeteco”. tinha que ser um ‘ela’ aí na música, claro. a obsessão é palavra feminina. não tem jeito. não, nem todos têm esse medo absoluto de se perder entre um e outro rosto. entre um ou outro momento de prazer. de se perder e perder também o instante fixado em algum canto da história. sim, porque você acredita cegamente que não vai esquecer nunca do beijo que ele te deu quando acordou, encostou o corpo no seu e devagarzinho tocou os lábios, docemente. não são tantos os adjetivos também pra essas pessoas. foi um momento que escapou pela merda da areia do tempo que escorre sem o menor controle de um ser humano qualquer. não, elas não ligam a mínima pra vontade que vem de uma hora pra outra de continuidade. quase sempre é de noite que vem. mas acontece de ser no meio da tarde de trabalho também, entre um telefonema e outro. entre um pedido de resposta pra alguma dúvida e o processamento de uma informação nova, o cérebro pode se perder, cair na memória, e lembrar de uma coisa dessas no meio da tarde. quando era pra você pensar nas merdas das palavras que vão abrir a matéria do mês da revista e não permitir que um neurônio se perdesse naquela imagem inocente de um pé sobre o outro na sacada fria de uma casa silenciosa entre uma fumaça ou outra. não, não, essas pessoas usam a palavra ‘permitir’ para coisas burocráticas e chatas. não se coloca uma palavra tão precisa num contexto desses, no meio de uma tarde de trabalho. nunca. mas você continua a trabalhar e a sonhar e a desejar que as pessoas não mais passem desse jeito. você precisa mudar a direção, o foco, e não desistir. porque você já pensou em desistir, mas não consegue. você já pensou milhões de vezes na idéia de mudança. mas também não consegue. e ainda assim essas pessoas não percebem o quanto a vida atropela a gente. não sentem a velocidade. e deletam umas as outras. vão passando e passando e passando. talvez você nunca supere o medo pavoroso de perder alguém que entrou com os dois pés na sua vida. talvez ainda sinta a mesma dor diversas vezes e se questione mais quinhentas vezes o motivo de tudo isso. talvez. nunca se sabe. mas você sabe que vai lembrar de certas coisas pra sempre mesmo. você sabe que não vai sentir raiva e vai dormir com aquele sorrisinho esperto quando lembrar, de uma hora pra outra, do jeito que ele arrumou o edredom no frio mais quente que já passou numa cidade pequena por aí.