(Eu li em 2004. do blog: eusoquisdizer que não existe mais. Ainda tá lá. Mas não é atualizado desde 2006. Eu gostei tanto na época. E achei de novo. Porque lembrei. E gostei de novo. É da Camila. do blog do Cirillo. que tomava muitos pés na bunda da Maria Joaquina. o próprio.)
Fantasia (humpf) – ou – Sem fantasia (Vem, que eu te quero todo meu) – ou ainda – Ah, se tudo na vida fosse tão simples quanto escrever um strip tease…
Triim trrimmm.
Deixou um rastro de espuma pelo apartamento ao atravessá-lo para atender ao interfone. “Diacho, quem será?”. Sua pergunta foi respondida quando Juvêncio, o porteiro, disse o nome de quem o aguardava: “é Luiza, pro senhor”.
Susto. ELA ali. Por quê? Para quê? Tudo já estava claro e esclarecido, não?! “Manda subir”. Pouco tempo depois, ela estava na porta do seu apartamento. Com um semblante de criança que acabou de fazer arte. Sorriu, aquele sorriso imenso que era só dela, se jogou no pescoço dele e disse:
- Me dê um abraço de duas horas. Não me deixe ir.
Outro susto. Ela chega sem explicação, se joga em seu pescoço, e ainda pede para não ir embora? Mulheres, decididamente ele morreria sem entendê-las. À essa altura ele só sentia o perfume dela, e os cabelos encostando em sua nuca molhada. O corpo dela tão próximo, e ele de toalha. Er… Melhor não abraçar tão forte, né? Entusiasmo é coisa que não se controla. Mas ele não precisou se soltar dela. Aliás, ele nunca precisara disso, ela sempre soubera se soltar. Se soltou dele de vez quando ele disse “não”, sem criar nenhuma situação constrangedora. E agora, ela estava ali, cheirosa, resplandecente e com uma sacola na mão.
- Vá se compor, seu devasso. Se a toalha cair, eu não respondo por mim.
Mais susto. Desde quando ela falava assim sem ser brincando? Porque dessa vez ele viu, ela falou sério, olhando para ele com aqueles olhos grandes. Ele saiu, sem falar nada, na verdade sem saber direito como agir, o que falar; afinal, sobre o que conversariam? Enquanto colocava um short e uma camiseta branca, pensou em como ela estava vestida: uma saia que parecia aberta na lateral. Como chamavam aquela saia mesmo? Bem, sabe-se lá, ele só sabia que a saia era preta e parecia se abrir na lateral. Saia curta, botas de cano alto e blusa azul. Costas de fora. Epa. Peraí. Botas de cano alto e costas de fora? Hum, aí tem coisa…
Voltou para a sala, e ela estava sentada no sofá. Pernas cruzadas. Que pernas… Ela olhou para ele e deu um sorriso de menina, e agora ela parecia ela: sorriso de menina tímida. Sentou-se ao lado dela no sofá, e viu que ela havia trazido tequila.
- Virou manguaceira, é?
- Hum… Só nessas ocasiões.
Melhor não perguntar “que ocasiões”. “Essa aí era cheia das graças, sempre falava coisas com a intenção que eu perguntasse alguma outra coisa, para ela insinuar outras e a aí já era”. Ele estava perturbado com a presença dela.
- Onde tem limão, sal…?
- No banheiro, ao lado da minha loção de barbear.
- Haha, engraçadão.
- Sempre fui esse pândego.
- Me morro de rir.
Foi até a cozinha como se a casa fosse dela. Trouxe limão e sal num pratinho.
- Ok, pinguça, você quer o quê? Me embebedar?
- Não seria má idéia. Mas não, quero brincar.
- Brincar? Começo a ficar com medo agora ou daqui a pouco?
Ela se abaixou para colocar o prato com limão e sal sobre a mesinha de centro. Se abaixou e fez um movimento meio engraçado com as pernas, para que ele não visse sua calcinha. Mas ele viu. Ou quase viu, a calcinha era preta. Ou não? Ah, se ele não fosse um gentleman faria algum tipo de perguntinha capciosa sobre a cor da calcinha dela. Mas isso ia acarretar em quê? Em gracinhas da parte dela. E da dele. E quando vissem estariam gargalhando, e ela se tornaria irresistível, e ele a agarraria, e não era para isso acontecer. Ele havia dito “não”, e não voltaria atrás. Por que “não”? Nem ele sabia direito. Na verdade ele apresentava razões plausíveis sobre esse “não”, mas quase que esquecia por completo dessas razões com ela por perto. Ela olhou para ele com um brilho nos olhos e disse:
- Ai, eu adoooro tequila! Vou tomar a primeira.
PAM. Virou o copo. Aplausos. Ela riu
- Agora você. Ou você acha que vou pagar mico sozinha?
- Ok, eu bebo. Mas Luiza, juro que até agora não entendi patavinas do motivo de você estar aqui. Não nos vemos desde…
- Saudades. Queria te ver, vim te ver. Vini, vidi. Vinci? hahahaha.
- Quis me ver encachaçado? É isso que não estou entendendo.
- Deixa de firula, vai. Eu não vim aqui pra conversar.
PAM. Virou o copo. Aplausos. Os dois gargalharam.
- Eu de novo!
- Eita nós!
Ele gostou da sensação da bebida descendo quente. Ele riu da cara que ela fez quando engoliu a tequila. Havia se esquecido como a companhia dela era gostosa, como tudo era simples e bom, como ele podia ser ele.
- Vai, agora eu de novo.
- Não. Agora a gente vai brincar. Olha pra mim. Se eu rir primeiro, você coloca sal em alguma parte do meu corpo, lambe e bebe a tequila. Se você rir, eu coloco sal em você.
- Luizaa, desde quando isso vai dar certo? Sabe onde isso vai dar? Tequila body shot?
- Deixa de bobagem. Você quer, não quer?
- Mas…
- Eu odeio seus “mas”. Quer brincar?
- Mas eu vou rir.
- Rá, ponto pra mim. Vem, me olha. Zóio no zóio, quero ver o que você diz…
Se olharam. Ele fez cara de vesgo. Ela perdeu. Ele jogou sal no colo dela e lambeu. Depois virou a tequila
Se olharam. Ela fez cara de baranga perversa. Ele riu. Ela jogou sal na coxa dele e lambeu. Virou a tequila.
Se olharam. Ele arregalou os olhos castanhos e fez bico. Ela achou ridículo, riu, perdeu de novo. Ele pediu que ela deitasse de bruços, e jogou bebida direto nas costas dela. Ela sentiu um arrepio por causa da bebida fria. Ele sentiu um arrepio porque lambeu aquelas costas nuas. Mas ela logo sentou-se novamente.
Se olharam. Mas dessa vez não riram. Ficaram muito tempo só se olhando. Não sabiam o que fazer, o que dizer, estavam alegres: de bebida e de momento. Foi ali que ela viu o quanto realmente gostava dele. Ainda. E foi ali que ele viu como ela era… ela era ELA. Ele pegou a garrafa de tequila e derramou a bebida na boca dela. Volúpia. Beijos. Não era possível que no mundo houvessem duas pessoas com um beijo tão bom, que se encaixassem tão perfeitamente. Luiza se soltou dele, se levantou, pegou um CD na sacola e colocou no aparelho de som.
- Eu te prometi uma coisa há um tempo, mas não tive como cumprir. Lembra?
- Promessas não cumpridas são inesquecíveis.
- Estou suficientemente bêbada para não ter vergonha, e suficientemente sóbria para não tropeçar nas minhas próprias pernas.
Ligou o som. Uma voz grave inundou a sala.
If you want a lover
I’ll do anything you ask me to
And if you want another kind of love
I’ll wear a mask for you
If you want a partner
Take my hand
Or if you want to strike me down in anger
Here I stand
I’m your man
Ela dançava, mas dançava como se fosse para ela, olhos fechados.
If you want a boxer
I will step into the ring for you
And if you want a doctor
I’ll examine every inch of you
If you want a driver
Climb inside
Or if you want to take me for a ride
You know you can
I’m your man
Abriu os olhos, olhou para ele, chegou bem perto. Fez ele se levantar do sofá, encostou no corpo dele e o fez dançar com ela. Quando ele fez menção de tocá-la, ela tirou as mãos dele.
Ah, the moon’s too bright
The chain’s too tight
The beast won’t go to sleep
I’ve been running through these promises to you
That I made and I could not keep
Ah but a man never got a woman back
Not by begging on his knees
Saiu de perto, dançou de costas, os cabelos caindo sobre as costas, ela era uma deusa. Ela era pernas, bunda, cintura, furor. Ela se virou…
Or I’d crawl to you baby
And I’d fall at your feet
And I’d howl at your beauty
Like a dog in heat
And I’d claw at your heart
And I’d tear at your sheet
I’d say please, please
I’m your man
Abriu um botão da saia. E foi aí que ele viu para quê servia aquela abertura lateral. A saia parecia enrolada nela, e ela abriu um botão e mesmo assim continuou vestida.
And if you’ve got to sleep
A moment on the road
I will steer for you
And if you want to work the street alone
I’ll disappear for you
If you want a father for your child
Or only want to walk with me a while
Across the sand
I’m your man
Chegou perto dele mais uma vez, pegou suas mãos e fez ele desabotoar a blusa. Mais uma vez dançaram juntos, seios que encostavam nele, mas ela se virou de repente e se afastou. Abriu o outro botão da saia, e a segurou aberta, como se fossem asas. Brincou com a saia, dançou, abaixou. Ele estava embasbacado.
If you want a lover
I’ll do anything you ask me to
And if you want another kind of love
I’ll wear a mask for you
Calcinha preta. Blusa azul no chão. Botas de cano alto. Ela de costas. Luiza se virou e foi chegando perto dele, sorrindo. Ela não teve tempo de tirar a calcinha, quando viu, ele já havia feito isso por ela, sôfrego, quase bêbado, quase desesperado. Camiseta branca voou, short sumiu, botas ficaram. Eles não se agarraram, eles se atracaram. E assim ficaram, juntos, por horas, horas, horas. Não se soltariam mais.
No dia seguinte, quando ele foi comprar pão para fazer um café da manhã para ela, a vizinha dele, uma velhinha de 75 anos, o olhou de um jeito diferente. Sorriu, cúmplice. E perguntou:
- Noite quente não?
Ele corou.
- Nossa, tem feito muito calor ultimamente, né, meu filho?
É. Calor, muito calor.