João Antônio tinha um par de meias azul marinho. Quando João Antônio usava as meias, não chovia em São Paulo. O garoto tinha 13 anos, cabelos batendo na orelha, olhos e sobrancelhas negras. Todos os dias tentava usar as meias para que a cidade não ficasse suja e cheia de gente caindo pelos barrancos. João Antônio não sabia direito. Mas sentia uma tristeza feia quando assistia o Jornal Nacional deitado no sofá confortável do apartamento no Morumbi. A água parecia também feia nessas horas. Não entendia o que os mais velhos falavam nas reportagens que vinham do Nordeste. O sotaque estranho, o olhar caído e a boca que mal se movia para soltar as letras atrapalhavam o entendimento. João Antônio acordou hoje e as meias estavam lavando. Zenita, a empregada, não aguentou o cheiro fedido que saía do quarto. João Antônio usou meias brancas. E o dia parecia nem ter amanhecido.